quarta-feira, janeiro 04, 2017

Mais considerações sobre o dia longo de Josué

Em complemento à resposta dada à pergunta sobre o dia longo de Josué (confira aqui), seguem abaixo mais dois comentários, do geólogo Marcos Natal de Souza e do astrofísico Eduardo Lutz:

“A Bíblia é a palavra inspirada de Deus e fonte de toda a verdade, entretanto, foi escrita por homens de culturas diferentes, com conhecimentos diferentes e em épocas também diferentes, num período de mais de 3.500 anos. Essa linguagem poderia conter ‘erros’, uma vez que o conhecimento humano acerca da natureza esteve sempre em mudança. Entretanto, não seriam erros no sentido estricto, mas formas diferentes de entender o mundo que nos rodeia. Esse conhecimento acerca do mundo e de como ele funciona foi diferente para Abrahão, Moisés, Josué, Davi, Josias, Paulo e outros. Entretanto, essa linguagem humana transmitia uma mensagem muito superior, de índole puramente religiosa, esta, sim, imutável, pois a Palavra de Deus não muda. Para que Deus pudesse Se comunicar com o ser humano Ele teria que se expressar na linguagem e na cultura humanas, caso contrário, não seria entendido e a Bíblia se tornaria um livro de acesso somente aos ‘iniciados’, mas esse não é o objetivo da Bíblia. Voltando ao caso de Josué, alguma coisa sobrenatural realmente aconteceu. Do ponto de vista de um observador na Terra, o Sol realmente se deteve e voltou a se movimentar lentamente até o fim do dia, o que sugere uma visão de mundo geocêntrica. Se não foi o Sol que parou, foi a Terra que deixou de girar. Se isso acontecesse naturalmente, ou seja, se a Terra parasse de girar de forma repentina, é provável que toda a vida teria sido extinta. Afinal, a velocidade de rotação, por exemplo, em Brasília, é da ordem de 1.600 km/h. Qualquer pessoa ou coisa nesse paralelo seria arremessada tangencialmente para a atmosfera a essa velocidade. Uma catástrofe sem dimensões! Nesse caso, prefiro aceitar pela fé que Deus operou um grande milagre, como tantos outros” (Dr. Marcos Natal de Souza).

“A rigor, se a Terra para de girar, é tecnicamente correto dizer que o Sol para no céu. E isso não é Relatividade. Já se usavam diferentes referenciais na teoria de Newton também. Considerar a Terra como parada e o resto do Universo como girando ao redor é um referencial possível e até utilizado na prática, dependendo da aplicação. Não é tecnicamente errado fazer isso. O problema é que esse não é um referencial inercial e faz com que as leis físicas pareçam muito mais complexas do que o necessário. Por isso, em geral, os físicos usam outros referenciais. Também trabalhamos com abordagens independentes de referenciais. Na Relatividade, por exemplo, podemos usar uma notação da Geometria Diferencial que independe de referenciais, mas normalmente preferimos trabalhar com referenciais que simplifiquem os cálculos, após provar que as equações utilizadas são válidas em todos os referenciais. Outro detalhe: se frearmos um carro bruscamente, sentimos os efeitos da aceleração. Se o carro bater, a aceleração (taxa de alteração de velocidade) é tão alta que tem efeitos catastróficos. Mas, se pararmos um carro por meio de um campo gravitacional, ninguém nota. Se Deus parou a rotação da Terra por meio de um campo gravitacional bem planejado, isso não causaria qualquer efeito observável na Terra. Em suma, quando Josué diz que o Sol parou, está tecnicamente correto, pois o referencial usado era obviamente o do ambiente dele, ou seja, da superfície da Terra” (Eduardo Lutz).

sexta-feira, dezembro 16, 2016

Sexo no sábado: pode ou não pode?

[Estas considerações sobre a prática do sexo no sábado representam o entendimento do autor sobre o assunto e têm que ver especificamente com pessoas que guardam o sábado como dia sagrado. Este material tem como objetivo testar os argumentos utilizados a favor do sexo no sábado à luz da Bíblia e do Espírito de Profecia e propor uma visão alternativa ao “pode”. O autor não encontrou praticamente nenhum material contra a prática de sexo no sábado, apenas a favor. Apesar de a Igreja Adventista do Sétimo Dia não ter um posicionamento oficial sobre essa prática, só se encontram textos a favor. Vários desses materiais foram lidos pelo autor deste artigo e seus argumentos analisados à luz da Bíblia, dos escritos de Ellen White e da razão. Logo a seguir a este texto, há duas defesas do “pode”. Leia tudo e tire suas conclusões.]

Ellen White escreveu o seguinte sobre o cuidado que devemos ter em relação ao que consideramos certo ou errado quanto à santa lei de Deus e, em especial, quanto à guarda do sábado: “A lei de Deus é o Seu grande padrão de justiça. Os homens podem, com suas ideias finitas, criar um padrão próprio, e afirmar que eles são justos; mas é o padrão de Deus que julgará cada homem naquele grande dia. Os reclamos do sábado não devem ser considerados de forma a mostrar somente um respeito parcial, para fingir guardá-lo, tornando-o inteiramente um assunto de conveniência” (Manuscrito 34, 1897).

Deve-se procurar o padrão de Deus na questão sobre o sexo no sábado e ajustar nosso padrão ao padrão dEle. Boa parte das falas a favor do sexo no sábado são sátiras, zombarias, escárnios apresentados como “argumentos”. Essa abordagem debochada tenta impor uma superioridade de argumentos, sem ter nenhum argumento. Outro grande grupo de “argumentos” a favor do “pode” são as falácias do tipo argumentum ad hominem, quando se procura negar uma proposição focando no autor e não no argumento. São frases do tipo: “Se você tiver um pensamento equivocado sobre o sexo ou sobre a sexualidade, então você será contra o ‘pode’.” “Se sua visão for de que o sexo seja nojento, então você será contra o ‘pode’.” “Se sua visão for correta, então você será a favor do ‘pode’.” “Se você for um pervertido sexual, o sexo no sábado será pecaminoso para você.” “Se você for instruído e inteligente, apoiará o ‘pode’, mas se você for um cristão imaturo, apoiará o ‘não pode’.” “Se um homem defender o ‘não pode’, até mesmo sua masculinidade será questionada.” E etc.

Frases desse tipo servem para intimidar os que pensam diferente e pressioná-los a aceitar o “pode” sem questionar, ou os levam a ficar em silêncio para não se expor como “doentes”, “pervertidos”, “imaturos espirituais” ou outros termos pejorativos similares. Isso acontece muito em encontros de casais. Relatos de participantes demonstram que muitos permanecem em silêncio para não ser objeto de piadinhas.

Outro “argumento” muito utilizado é o argumentum ex silentium, ou seja, por mais que o sentimento interior das pessoas chegue à conclusão natural de que “não pode”, o fato de se não ter um texto claro proibindo, então, garantiria a total liberação. Como existe um silêncio, então “pode”. Porém, esse mesmo argumento do silêncio pode ser utilizado para o “não pode”, pois também não existe nenhum texto dizendo que “pode”. Assim, esse argumento se anula por si só.

Um argumento básico para o “pode” é a visão judaica liberal sobre a questão. Os judeus praticantes podem ser excessivamente cuidadosos com a guarda do sábado. Deve-se lembrar que eles podem estar coando mosquitos e engolindo camelos, como em muitos outros casos, parafraseando as palavras de Jesus em Mateus 23:24. Os judeus ortodoxos são contra a prática sexual aos sábados. Em suma, a guarda do sábado por um adventista não pode ter como referencial a observância judaica.

“Cristo, durante Seu ministério terrestre, deu ênfase aos imperiosos reclamos do sábado; em todo o Seu ensino Ele mostrou reverência pela instituição que Ele mesmo dera. Em Seus dias, o sábado tinha-se tornado tão pervertido que sua observância refletia o caráter de homens egoístas e arbitrários, antes que o caráter de Deus” (Profetas e Reis, p. 183).

Será que nos dias atuais o sábado tem sido pervertido e tem refletido o caráter egoísta e arbitrário dos que dizem guardá-lo, assim como os judeus do tempo de Jesus? Parece muito ingênuo supor que nos dias atuais haveria um total e completo entendimento sobre a observância do sábado, ignorando-se as ações do inimigo de tentar destruir essa bênção.

Alguns imaginam que na sexta-feira da criação Adão e Eva não deixaram passar o sábado para usufruírem a bênção da sexualidade. Esse argumento deve ser mais bem analisado para que se possam tirar as devidas conclusões sobre o assunto.

Adão e Eva foram criados no sexto dia da semana da criação. Assim que Deus os criou, determinou sua alimentação (comida), disse que deveriam se multiplicar (sexo) e cuidar do jardim (trabalho). O texto de Gênesis não afirma que essas atividades não poderiam ser desenvolvidas no sábado. Não fala nem mesmo contra o trabalho no sábado. Portanto seria absurdo tentar justificar a prática do sexo sabático com base em um relato que sequer restringe o trabalho aos sábados. Deus havia acabado de criá-los e dito que eles iriam trabalhar, e mesmo assim não temos o relato de que eles não poderiam trabalhar aos sábados. Por que querer que Deus deixasse por escrito a especificação quanto ao sexo? O texto de Gênesis não é suficiente para se chegar a qualquer conclusão favorável ao sexo no sábado.

Adão foi criado antes de Eva. Após conhecer o Jardim, a natureza, os animais, ele percebeu que faltava alguém semelhante a ele, que o completasse emocional, física e espiritualmente. No momento dessa confusão de sentimentos, Deus o coloca para dormir e cria Eva. Ao acordar, Adão percebe que não mais está só. Alguém muito especial está ao seu lado. Deus a apresenta a Adão.

Na atualidade, se uma moça fosse apresentada a um rapaz, ele rapidamente iria observar o corpo da jovem. Mas será que foi isso o que aconteceu com Adão e Eva? Não se pode olhar com nossos olhos o que aconteceu com seres santos, recém-criados. E se isso aconteceu, mesmo assim ainda era o sexto dia. Por que razão eles deixariam escurecer para só depois se unirem sexualmente? Com certeza, eles não teriam vergonha de fazer durante o dia algo “liberado” por Deus. Por que esperariam para a noite?

Porém, parece que havia tantas coisas a serem admiradas e tantas conversas a serem desenvolvidas no sábado que o quadro de um Adão “correndo atrás” de Eva não parece ser a melhor opção. O que você imagina diz mais sobre você do que sobre o que realmente aconteceu com o primeiro casal no primeiro sábado.

Alguns tentam se apropriar de uma versão católica do domingo ao aplicá-lo ao sábado como o dia da família e, por tabela, o destaque fica para a sexualidade matrimonial. Porém, a Bíblia diz claramente que o sábado é o dia do Senhor (Isaías 58:13; Marcos 2:28; Apocalipse 1:10). Por mais que a família seja importante, ela não está no lugar de Deus, o verdadeiro Senhor do sábado. Mais uma vez deve-se colocar o casamento no seu devido lugar, abaixo de Deus e de Sua lei.

Outro argumento apresentado a favor do sexo no sábado é o de que quem não concorda está apoiando uma espécie de ascetismo religioso (privação dos prazeres) com o objetivo de alcançar determinado nível espiritual. Esse argumento é uma espécie de falácia do espantalho, tentando criar algo absurdo, diferente do que é dito para ter mais força argumentativa. Só que essa afirmação não é verdadeira. Quem é que de fato está se privando de mais prazer? Quem faz sexo depois de uma semana com intensas atividades, estresse, preocupações, cansaço e baixos níveis de energia, ou quem faz sexo depois de um dia de descanso? Quem está se privando de prazer? Obviamente o que faz na sexta-feira à noite não desfrutará tanto quanto o que faz no sábado à noite.

Ellen G. White apresenta alguns textos sobre prazeres que realmente devem dar lugar a outros no sábado:

“Procurar prazeres, jogar bola, nadar, não era uma necessidade, mas pecaminosa negligência do dia sagrado santificado por Jeová” (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 258). O sábado é um dia em que devemos focar nas atividades que nos aproximam de Deus. Apenas as que caracterizam uma necessidade podem ser justificadas, de acordo com Ellen White. O sexo no sábado não é uma necessidade assim como o é a alimentação, o dormir à noite, o tomar água ou o respirar. E também não é uma prática que aumentará a espiritualidade ou a intimidade com Deus. As coisas proibidas para o santo sábado não são pecaminosas em si mesmas. Trabalhar, estudar, nadar, correr, etc. são atividades proibidas no sábado para darem lugar a atividades de relacionamento íntimo com Deus. Simbolicamente, pode-se dizer que o “sexo” no sábado tem que ser com Deus e não com o cônjuge.

“Estamos em perigo de fazer a nossa própria vontade no dia de sábado” (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 258). Estaria Ellen White propagando o ascetismo? Claro que não. A questão é que no sábado devemos esquecer nossa agenda e lidar apenas com a agenda de Deus. Por isso é importante identificar a agenda de Deus para o sábado e se adequar a ela. O ser humano tem seis dias para sua agenda. O sétimo dia é para a agenda de Deus.

O Dr. Alberto Timm, no livro O Sábado na Bíblia (CPB), página 116, apresenta uma lista de coisas prazerosas que não são condizentes com a observância do sábado. Dentre elas, ele cita “frequência aos shoppings e parques de diversão; exposição a notícias, músicas e programas seculares da TV, rádio ou internet; participação em esportes, jogos de mesa ou jogos eletrônicos; banhos públicos em praias ou piscinas; conversas de cunho secular, etc.”. Será que o Dr. Timm está pregando o ascetismo?

Dentre as atividades recomendadas pela Bíblia para o sábado não aparece o sexo.

“A verdadeira observância do sábado significa uma ruptura com a rotina da vida [...] sintonizando-a com os valores espirituais e eternos” (ibidem, p. 119).

A Bíblia afirma que, após a ressurreição, seremos como anjos, ou seja, no Céu a sexualidade dará espaço para outras realidades. O sábado é um dia focado no Céu. Hebreus 4 destaca o sábado como um tipo do Céu. Nessa linha de entendimento, não há espaço para o sexo no sábado, assim como não haverá sexo no céu.

Ellen White complementa, em Testemunhos para a Igreja, volume 2, página 702: “Você precisa ter mais alta compreensão dos reclamos de Deus com respeito ao Seu dia sagrado [precisamos elevar a visão do sagrado em relação ao sábado, e não diminuí-lo com atividades boas, mas destinadas aos outros dias]. Tudo o que possivelmente pode ser feito nos seis dias que Deus lhe deu, deve ser feito [o sexo pode ser feito nos demais dias da semana? Pode. Então não há necessidade de deixá-lo para o sábado]. Você não deve roubar a Deus em uma única hora do tempo santo [nem uma hora]. Grandes bênçãos são prometidas aos que colocam sobre o sábado um alto valor e compreendem as obrigações que sobre eles repousam com respeito à sua observância. ‘Se desviares o teu pé do sábado [de pisoteá-lo, desprezando-o], de fazer a tua vontade no Meu santo dia, e se chamares ao sábado deleitoso e santo dia do Senhor digno de honra, e se o honrares, não seguindo os teus caminhos, nem pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falar as tuas próprias palavras, então, te deleitarás no Senhor, e te farei cavalgar sobre as alturas da terra e te sustentarei com a herança de Jacó, teu pai; porque a boca do Senhor o disse’ (Isaías 58:13, 14).” Comentários acrescentados dentro do texto entre colchetes.

Ao começar o sábado, devemos nos colocar em guarda, cuidar de nossos atos e palavras para que não roubemos a Deus, apropriando-nos para nosso próprio uso daquele tempo que pertence estritamente ao Senhor. Como se rouba a Deus apropriando-se do que pertence estritamente a Ele? Por meio de atos e/ou palavras para o nosso próprio uso, nosso próprio interesse. O sexo é do nosso interesse? Sim. Então deixe para os demais dias da semana. Será que tem que ter sexo todos os dias da semana, inclusive no sábado? Nem o sábado pode ser poupado? Seis dias da semana é pouco para os interesses pessoais? Será que é necessário roubar o tempo de Deus?

É claro e evidente que a Bíblia não apresenta respostas para todas as questões quanto ao que se deve ou não fazer aos sábados. Mas a Bíblia apresenta princípios básicos que devem nortear as questões específicas. A Bíblia não proíbe especificamente o fumar maconha. Mesmo que alguns utilizem argumentos como “vantagens” para seu uso, o princípio que a Bíblia apresenta é o do cuidado do corpo.

Isaías 58:13 e 14 apresenta alguns pontos relevantes que devem ser analisados: (1) não cuidar dos seus próprios interesses; (2) não seguir seus próprios caminhos; (3) não pretender fazer sua própria vontade; (4) não falar palavras vãs. O resultado de se seguir essas recomendações será: “Então te deleitarás no Senhor.” Quando toda a sua agenda for tirada do foco, então, e só então, você se deleitará no sábado do Senhor.

“Nenhum trabalho que vise prazer... é lícito nesse dia” (O Desejado de Todas as Nações, p. 138). Nenhuma atividade que tenha o foco no prazer, como o sexo, por exemplo, é lícita para o sábado. Deus deu à humanidade seis dias, e o sétimo é dEle. Depois mais seis dias, e o sétimo é de Deus, e assim sucessivamente. O que faz algumas pessoas suporem que Deus não tenha direito à exclusividade de pensamento e de atenção? O que faz algumas pessoas acharem que possam tratar de aspectos mais pessoais em detrimento de uma dedicação mais integral a Deus?

“Há maior santidade no sábado do que lhe atribuem muitos que professam observá-lo. O Senhor tem sido grandemente desonrado por parte dos que não têm observado o sábado conforme o mandamento, quer na letra, quer no espírito. Ele sugere uma reforma da observância do sábado” (Testemunhos Seletos, v. 3, p. 20, 21). Muitos pontos relativos à observância do santo sábado precisam ser reconsiderados e reformados para que se não venha a utilizar esse dia para os próprios interesses. Alguns trabalham tanto durante a semana que quase não têm tempo para dormir, e procuram “repor o atraso” dormindo boa parte do sábado. Outros fazem algo parecido em relação ao sexo e à família. Durante a semana, a família é praticamente desprezada e o sexo é relegado a um plano último. Então, “já que o sábado é um dia perdido mesmo”, ele é utilizado para “tirar o atraso sexual”. Claro que o discurso e as justificativas serão os mais positivos e espirituais possíveis... Devemos dar tempo de qualidade à família e ao cônjuge todos os dias.

O Comentário Bíblico Adventista, volume 4, páginas 326 e 327, diz o seguinte sobre Isaías 58:13: “A essência do pecado é o egoísmo: fazer o que se deseja, sem levar em consideração a Deus ou ao próximo. O sábado dá ao ser humano a oportunidade de subjugar o egoísmo e cultivar o hábito de fazer o que agrada a Deus (1Jo 3:22) e que contribui para o bem-estar de outros.” O texto não está dizendo que atos egoístas podem ser praticados nos demais dias da semana. Não está dizendo isso! O texto diz que no sábado devemos viver uma vida de prazer altruísta, focada em nosso relacionamento íntimo com Deus. Grande quantidade de atividades permitidas nos demais dias da semana deve ser substituída no sábado por outras focadas em nosso relacionamento íntimo com Deus. Esse relacionamento produzirá atos de bondade e misericórdia para com o próximo. Desejos de satisfação própria deixam de ser prioritários quando entronizamos o Senhor do sábado.

Quando se lê o que Ellen White escreveu sobre o preparo para o sábado, é impossível não notar que atividades muito mais simples do que o sexo sabático são ali reprovadas. Como exemplo, veja o texto a seguir: “Na sexta-feira, deverá ficar terminada a preparação para o sábado. Tenhamos o cuidado de pôr toda a roupa em ordem e deixar cozido o que houver para cozer. Escovar os sapatos e tomar o banho. É possível deixar tudo preparado, caso se tome isso como regra. O sábado não deve ser empregado em consertar roupa, cozer o alimento, nem em divertimentos ou quaisquer outras ocupações mundanas. Antes do pôr do sol, coloquemos de parte todo trabalho secular, e façamos desaparecer os jornais profanos. Os pais devem explicar aos filhos esse procedimento e induzi-los a ajudarem na preparação, a fim de observar o sábado segundo o mandamento” (Testemunhos Para a Igreja, v. 6, p. 355).

Lembrando que ocupações mundanas não são proibidas em si, mas elas o são no sábado. São atividades comuns que não nos aproximam de Deus, sendo reservadas para os demais dias da semana.

“A sexta-feira é o dia de preparação. O tempo pode ser então dedicado a fazer os necessários preparativos para o sábado, a pensar e falar sobre isso. Coisa alguma que possa, aos olhos do Céu, ser considerada transgressão do santo sábado, deve ser deixada por dizer ou fazer no sábado. Deus requer, não somente que nos abstenhamos do trabalho físico no sábado, mas que a mente seja disciplinada de modo a pensar em temas santos. O quarto mandamento é transgredido mediante o conversar-se sobre coisas mundanas, ou leves e frívolas. Falar sobre qualquer coisa ou sobre tudo que nos vem à mente, é falar nossas próprias palavras. Todo desvio do direito nos põe em servidão e condenação” (Testemunhos Seletos, v. 1, p. 290).

A mente tem que ser disciplinada para pensar em temas santos no sábado. Será que pensar em sexo é um tema adequado para o sábado? O sexo não é pecaminoso, assim como várias outras atividades proibidas para o sábado também não são pecaminosas em si. Atividades pecaminosas não podem ser praticadas em dia nenhum, não só no sábado. Porém, várias atividades que não são pecaminosas não devem ser praticadas no sábado.

Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento aparecem textos em que são retratadas a abstenção sexual em determinados momentos de santificação. Esses textos não falam especificamente sobre o sábado, mas demonstram que, sob certas condições de santificação, era necessário se abster da prática sexual. O que será que isso pode dizer à igreja da atualidade?

Êxodo 19:14 e 15: quando o povo estava se consagrando para receber a santa lei de Deus, foi determinado que eles não se chegassem a mulher. Por alguma razão, Deus solicitou uma prática de abstenção para consagração do povo antes de receber os dez mandamentos. Alguns imaginam que o que é santo é santo de igual forma e intensidade. Seria difícil essa pessoa explicar a diferença entre os dois compartimentos do santuário, o santo e o santíssimo. Obviamente, existem níveis de santidade. A lei de Deus era colocada no santíssimo, num lugar distinto e mais especial do que as demais leis: dentro da arca da aliança. Não existe nada mais santo do que a lei de Deus, pois representa o próprio Deus, Seu caráter. O sexo é santo somente no casamento. E precisa seguir as normas dos dez mandamentos para continuar sendo santo. Não adulterar, não desejar a mulher do próximo, lembrar-se do dia do sábado são alguns exemplos de mandamentos que norteiam o casamento e o sexo no casamento.

I Samuel 21:4-6: apresenta outro caso em que a abstenção do contato com as mulheres foi avaliado e determinante na questão. Mesmo que seja apenas um aspecto cerimonial, ela pode encerrar um princípio moral relevante ainda em nossos dias.

I Coríntios 7:5: ao Paulo solicitar que não houvesse um tempo muito grande de abstinência sexual para não cair em tentação, ele destaca um ponto interessante que encontra eco nos textos anteriores e que contraria filosofias pagãs que acreditam que o sexo aproxima os seres humanos da divindade. Por alguma razão o texto apresenta um conflito de interesses entre a oração e a prática sexual. O texto claramente destaca que a prática sexual não possui as mesmas propriedades espirituais da oração que eleva a humanidade até Deus.

No Antigo Testamento, aparecem muito frequentemente a prostituição cultual como uma demonstração da crença pagã de que a prática sexual elevava a humanidade até a divindade. E essa prática sexual era muitas vezes entronizada nos templos pagãos. Alguns parecem acreditar que possuem uma espécie de “carne santa”, e que tudo o que fazem está revestido de santidade. E que a prática sexual os elevaria a Deus, devendo ser praticada no sábado.

“A Religião do Falo ensina até hoje que, ao orar, o homem invoca Deus; mas, ao unir-se sexualmente à sua mulher, se converte em Deus. O fogo do sexo é o fogo da santidade; a origem do sexo tem a raiz na própria Divindade. O sexo está em Deus, assim como o Filho está no Pai. O sexo e a santidade são duas linhas paralelas que se encontram em Deus; mas os olhos do libertino e os do hipócrita e fanático não podem ver esse encontro” (Do Sexo à Divindade: As religiões e seus mistérios, de Jorge Adoum, p. 18).

“Devemos esclarecer, de uma vez por todas, que, se os sacerdotes deram ao povo o culto da adoração ao Sol e aos planetas, foi porque os homens começaram a perverter a religião do sexo” (ibidem, p. 20).

“A união carnal, para os adoradores do sexo, é obra luminosa. Toda união é motivo de criação ou expressão. O mal não está no ato, e sim nos pensamentos que o precedem e o acompanham” (ibidem, p. 19).

Esses textos são uma amostra do pensamento pagão de que o sexo elevaria o ser humano a Deus. Alguns adventistas têm argumentado de forma semelhante ao tentar justificar a prática sexual sabática como uma ação que elevaria o ser humano a Deus, e que essa prática estaria em total sintonia com o espírito sabático.

No livro de Heschel, O Schabbat, é destacado o sábado como o santuário/templo no tempo. Onde quer que estejamos poderemos estar no templo do tempo, o santo sábado. É preocupante quando se defende a prática sexual no templo do tempo, assemelhando-se, assim, de certa forma, aos pagãos em seus pensamentos e práticas.

Conclusão
Sábado não é o dia da família. Não é o dia das minhas vontades sexuais. Sábado é o dia do Senhor. É dia de fazer a vontade de Deus. É o dia de se relacionar intimamente com Ele. Claro que isso tudo irá refletir no relacionamento com o próximo, mas não a ponto de ofuscar e/ou distorcer o relacionamento com Deus.

“George Knight mencionou certa ocasião a existência de uma pergunta ‘anticristã’ e outra ‘cristã’ em relação ao sábado. A pergunta anticristã é: ‘Posso fazer isso no sábado e ainda ser salvo?’ e a pergunta cristã seria: ‘Qual é a melhor maneira de observar o sábado?’” (O Sábado na Bíblia, p. 112).

“O sábado não deve ser passado em ociosidade, mas tanto em casa como na igreja, cumpre-nos manifestar espírito de adoração. [...] Nesse dia todas as energias da alma devem estar despertas; pois não temos que nos encontrar com Deus e com Cristo, nosso Salvador?” (Testemunhos Seletos, v. 3, p. 28).

O fato de não existirem textos específicos sobre determinado detalhe não pode ser um salvo conduto para se praticar todas as possibilidades. Quando se fala em roupa decente, por exemplo, já se está apresentando o padrão a ser seguido, não uma roupa específica. Na questão do sábado, de igual forma, temos claros princípios bem firmados e estabelecidos por Deus, tanto revelados na Bíblia quanto no Espírito de Profecia.

A Bíblia e Ellen White falam pouco sobre a sexualidade, mas o suficiente para entendermos os princípios que devem nortear nossos procedimentos práticos diários.

À lei e ao testemunho são os critérios válidos para testar se algo é de Deus ou não. O casamento foi criado por Deus antes mesmo da existência do pecado e deve ser resguardado dele. Pecado é a transgressão da lei. O casamento deve ser norteado pela prática dos dez mandamentos. Por isso não se deve adulterar, pois a lei diz: “Não adulterarás.” Não se deve desejar a mulher do próximo, pois a lei determinada assim. Não se deve transgredir o santo sábado, pois a lei também destaca a importância de se lembrar de santificar o sétimo dia.

(Vanderlei Ricken é bibliotecário)

[Conheça agora outra linha de argumentação, a favor do “pode”. O primeiro material vem do livro Sexo: Respostas honestas a perguntas sinceras, da Casa Publicadora Brasileira, escrito por Jorge Bruno e Maurício Bruno. Veja o que consta no capítulo 5 dessa obra:]

Se a relação sexual é do tipo concupiscente ou oposta à ordem natural estabelecida por Deus, será ilícita não só no sábado, mas em qualquer outro dia da semana. Quando se trata de uma relação legítima, fundada no amor como princípio racional, nenhum membro da igreja vê problema em mantê-las nos dias comuns da semana. Mas por que se questiona fazê-lo no dia do Senhor? Em relação a essa dúvida, temos visto e ouvido muitas discussões que não ajudam a unidade da igreja. Cremos que deve haver suficiente amplitude de mente e espaço eclesiástico para o pensamento das posturas que defendem o “sim” e o “não”. Não há motivo para dogmatizar em assuntos que são uma questão de consciência, sobre os quais não há um claro “assim diz o Senhor”, nem sequer uma palavra explícita no Espírito de Profecia.

Os que defendem o “não” apresentam o argumento de Isaías 58:13 e 14: “Se desviares o pé de profanar o sábado e de cuidar dos teus próprios interesses no Meu santo dia; se chamares ao sábado deleitoso e santo dia do Senhor, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, não pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falando palavras vãs, então, te deleitarás no Senhor...”  A ideia é que não se pode fazer a própria vontade no dia de sábado, e fazer o ato sexual é, segundo eles, um ato voluntário próprio. Os que defendem o “sim” respondem a esse argumento dizendo que se o ato sexual se harmoniza com o plano de Deus para a sexualidade humana, aquilo que se faz não se opõe à vontade de Deus nem à santidade do sábado, muito ao contrário, exalta e a magnificas.

No sábado, eu decido ir à igreja, e esse é um ato de minha vontade, muito legítimo por certo, mas ninguém o questiona porque está em harmonia com a vontade de Deus. É a vontade divina que torno minha. Assim também acontece com a sexualidade, já que é legítima quando se harmoniza com essa vontade criadora que a inventou. Deus designou que fosse posta em ação a partir daquela primeira sexta-feira da criação, quando disse: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a Terra” (Gênesis 1:28). Isso não dá permissão à mera complacência carnal, naturalmente – como todas as coisas – desviada do ideal divino. É curioso que a ordem fora dada na sexta-feira, antes do pôr do sol, e que a oportunidade de concretizá-la pela primeira vez estava precisamente naquele glorioso primeiro sábado da criação, que Adão e Eva passaram juntos, inaugurando sua “lua-de-mel”. Daquilo que foi feito e dito na sexta-feira, Deus declarou que era “muito bom” (Gênesis 1:31), superlativo que inclui indubitavelmente a sexualidade para colocar em ação o maravilhoso fenômeno da procriação.

Outra coisa: a Palavra de Deus apresenta um pormenor significativo para nós hoje. Quando Adão e Eva foram apresentados um ao outro, diz-se-nos que “estavam nus e não se envergonhavam” (Gênesis 2:25). Essa expressão descreve para nós a transparência e intimidade física que faz com que os esposos possam estar despidos e desejar-se um ao outro. Isso facilita iniciar o jogo amoroso que os levará ao êxtase supremo do prazer planejado e ordenado pelo Criador. Quando se faz aquilo que foi planejado por Deus, nada pode torná-lo profano ou sujo, como tampouco fazê-lo violar o santo dia do Senhor, porque o santo não pode invalidar o santo.

Nossa opinião é que não há sabedoria em posições extremistas para o “sim” ou para o “não”. Referimo-nos aos que creem que é um grande pecado fazê-lo no sábado e aos que creem que não deve haver limite algum sobre o assunto. Não se deve impor nenhuma postura pela força de uma posição de liderança eclesiástica. Cremos que deve haver respeito mútuo entre os que defendem uma ou outra posição, e que finalmente cada um deve decidir. Em assuntos de consciência, cada qual deve ser deixado livre. Quando o casal não está de acordo, entretanto, já que um defende o “sim” e o outro o “não”, a decisão que aconselhamos é a favor do não. Dessa forma, aquele que crê ser errado fazer sexo não violará sua consciência moral, pecando consequentemente.

Por fim, nossa posição é que não há nada que possa tornar ilícito ou imoral o ato sexual no dia do sábado. Isto é, desde que seja um ato legítimo que não interfira com o dar a primazia a Deus e às atividades sagradas do sábado planejadas pela igreja. Também pensamos que, embora seja legítimo fazê-lo no sábado, não se deveria planejá-lo sistematicamente para esse dia, como tampouco para nenhum dia específico da semana, dando assim lugar à espontaneidade.

É errado fazer sexo no sábado?

Respondemos que não há nada sujo ou errado no sexo praticado como Deus manda [e não como o homem bem entende] e que, portanto, não violamos o dia do Senhor amando-nos sexualmente. Essa pergunta se encaixa no contexto da ideia de que o sexo tem em si mesmo algo mau e que por isso é incompatível com o dia santo.

Lamentavelmente, ainda existe na grande comunidade cristã o preconceito milenar de que o sexo teve algo a ver com o pecado original do casal edênico. Portanto, crê-se que é um “mal necessário” para procriar, mas que fora isso, praticá-lo por puro prazer é promover as “concupiscências da carne” e desejar o pecado. Tal postura é totalmente antibíblica, já que antes da queda o casal edênico recebeu a ordem de povoar a Terra, obviamente, amando-se sexualmente. Além disso, o pecado original está relacionado com a desobediência produzida pelo espírito de independência da vontade de Deus. Não há outro pecado original, e menos ainda que tenha alguma relação com o sexo. O que está claro na Bíblia, sim, é que o pecado degradou o sexo e o submergiu no lodaçal das paixões impuras e descontroladas. Mas, quando ele é praticado segundo o plano de Deus, é uma atividade que une e fortalece o amor. Também provê intenso prazer e produz a maravilha de um novo ser feito à imagem de Deus e à imagem de seus progenitores.

No livro de Provérbios, a relação sexual não tem limitações de tempo, pois está escrito: “Saciem-te os seus seios em todo o tempo; e embriaga-te sempre com as suas carícias” (5:19). Obviamente, em todo o tempo e sempre incluem os sete dias da semana. A propósito, recomendamos que leia e estude com oração todo o capítulo 5 de Provérbios. Esse capítulo contém as duas faces da paixão, a impura que leva ao adultério e a pura que conduz ao gozo delicioso do amor físico planejado por Deus.

Existe na Bíblia, entretanto, uma declaração específica que proíbe fazer sexo durante o período menstrual da mulher. Levítico 20:18 diz: “Se um homem se deitar com mulher no tempo da enfermidade dela e lhe descobrir a nudez, descobrindo a sua fonte, e ela descobrir a fonte do seu sangue, ambos serão eliminados do meio do seu povo.” (Ver também Levítico 18:19.) Vários séculos depois, o profeta Ezequiel registrou as palavras de Deus que relacionam o “homem justo” com aquele que não se chega “à mulher na sua menstruação” (Ezequiel 18:5 e 6). Hoje podemos compreender que, por razões higiênicas e estéticas, a penetração deve ser descartada durante as regras da mulher.

[Finalmente, assista ao vídeo produzido pelo apresentado do programa “Na Mira da Verdade”, Leandro Quadros:]

quarta-feira, outubro 05, 2016

50 falsas profecias da Torre de Vigia

Eu sei que devemos respeitar todas as pessoas e todas as religiões que promovem a paz. Aprecio muito a organização e o trabalho de porta em porta desenvolvido pelas testemunhas de Jeová e sei que há muitas pessoas sinceras nessa denominação, como também em todas as outras. Mas ouvi falar que a Sociedade Torre de Vigia já divulgou muitas profecias que não tiveram cumprimento. Isso é verdade? – V.

Infelizmente, é verdade, sim. A lista a seguir foi extraída do livro O Desafio da Torre de Vigia, do jornalista Azenilto Brito. Ele fez uma extensa pesquisa em publicações da Sociedade Torre de Vigia. O livro digital pode ser pedido por estes e-mails: profazenilto@hotmail.com ou atalaiadesiao@yahoo.com.br

I – Reivindicações insustentáveis

1. “A Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados é a maior corporação do mundo, porque desde o tempo de sua organização [1884] até agora o Senhor a tem usado como Seu canal mediante o qual torna conhecidas as Boas Novas” (The Finished Mystery, p. 144).

2. “A ‘Sociedade’ é o representante visível do Senhor sobre a Terra” (Jehovah’s Witnesses, p. 149).

3. “A organização visível de Deus hoje também recebe orientação e direção teocráticas. Na sede das Testemunhas de Jeová, em Brooklyn, Nova Iorque, existe um corpo governante de anciãos cristãos de várias partes da Terra que dão a necessária supervisão às atividades mundiais do povo de Deus. Este corpo governante é composto de membros do ‘escravo fiel e discreto’ [Mateus 24:45 subentendido]. Os homens desse corpo governante... sendo governados teocraticamente, seguem o exemplo do primitivo corpo governante de Jerusalém, cujas decisões baseavam-se na Palavra de Deus e eram feitas sob a direção do espírito santo” (Poderá Viver, p. 195).

4. Ensinos originários do céu: Cumprir-se-á Então, p. 212-214; Sentinela, 1º de outubro de 1972, p. 528 (último parágrafo) e 584 (§§ 6 e 7).

Obs.: Para outras declarações pretensiosas do mesmo teor, ver: Santificado Seja, p. 296, 297, 303, 308; Seja Feita, p. 166, 167, 200; Verdade Tornará, p. 311, 312; Nações Terão, p. 62, 63; Paraíso Restabelecido, p. 333-335.

II – Uma relação comprometedora para uma teocracia

Abaixo estão listadas 50 falsas profecias, falsas datas proféticas e falsos esquemas proféticos da Sociedade Torre de Vigia, desde C. T. Russell, seu fundador, até o presente, comprovadas com a literatura editada ao longo dos anos pela organização:

 1. Advento visível, literal de Cristo em 1874: The Finished, p. 53, 54. Obs.: Era a expectativa inicial de Russell, segundo ensinos que acatara de Jonas Wendell, em 1872.

 2. Advento invisível (começo da parousia) em 1874: Criação, p. 125*; Prophecy, p. 65; Sentinela 15/2/75, p. 122; The Finished, p. 167.* Obs.: Essa foi a nova interpretação originada por Nelson Barbour e aceita por Russell em 1876. A data agora admitida para o mesmo evento é 1914.

 3. Fim dos 6.000 anos desde a criação do homem, e começo do 7º milênio em 1872: Studies (Millenial Dawn) – II, p. 3; Sentinela, 15/2/75, p. 122; Aproximou-se Reino, p. 207.

 4. Início do 7º milênio desde a queda do homem, com dois anos desde a criação até a queda: Sentinela, 15/2/75, p. 122; Aproximou-se Reino, p. 207. Obs.: A data presentemente admitida para o fim dos 6.000 anos desde a criação do homem e início do 7º milênio é 1975. Nada é dito de dois anos entre a criação e a queda.

 5. Começo do tempo de angústia em 1874, segundo 3.416 polegadas de medidas da Grande Pirâmide (simbolizando 3.416 anos proféticos desde 1.542 a.C.: 3416 - 1542 = 1.874). Studies in the Scripture – III, 234, edição de 1918.

 6. Começo do tempo de angústia em 1915, segundo 3.457 polegadas de medidas da Grande Pirâmide (simbolizando 3.457 anos proféticos desde 1.542 a.C.: 3457 - 1542 = 1915). Studies – III, 342, edição de 1923.

 7. Domínio restaurado à humanidade (Paraíso restabelecido) no ano de 2.914 d.C.: The Finished, p. 60, 64* [ver § 43].

 8. Data da criação do primeiro homem – 4.128 A.C.: Aproximou-se Reino, p. 206. Obs.: A data atualmente admitida é 4.026 A.C.

 9. Datas proféticas baseadas na desolação de Israel: The Finished, p. 61; O Eterno Propósito de Deus Vai Triunfando Agora, p. 9, 10.

10. Arrebatamento e glorificação do “remanescente”, súbita e miraculosamente, em 1878, para viver com o Senhor para sempre (ressurreição invisível dos santos adormecidos): The Finished, p. 64*; Los Testigos de Jehová en el Propósito Divino, p. 19.

11. Esquema profético sobre o “dobro” – 1845 anos desde 33 a.C. levando a 1878 d.C., ano em que haveria especial favor de Deus ao Israel literal: The Finished, p. 64*; Vida, p. 159. Obs.: Tanto o esquema quanto a data deixaram de ter sentido para a atual cronologia “bíblica” da Sociedade Torre de Vigia (STV).

12. Alto clamor iniciando-se em 1881: The Finished, p. 64* (§ 2º, 4ª linha). Obs.: A data agora é 1919, cf. Aproximou-se Reino, p. 191.

13. Tempo de angústia inigualável entre 1874 e 1914: Santificado Seja, p. 306, 307; Cumprir-se-á Então, p. 267, 276.

14. A redenção do corpo (a igreja de Cristo, cf. Rm 8:22, 23) antes de 1914: Studies (Millenial Dawn)III, p. 228,* ed. 1902.

15. A glorificação da igreja e o estabelecimento do Reino (sobre a Terra) no ano de 1914: Studies, II, p. 77*; Light, Livro 1, p. 194* e 195*; Cumprir-se-á Então, p. 110, 210; Sentinela, 15/2/75, p. 123; Aproximou-se Reino, p. 188; Próxima Salvação, p. 130, 131; Clímax Próximo, p. 130.

16. Início da fase terrestre do Reino. Ressurreição de heróis da Bíblia até João Batista no fim de 1914: StudiesIV, p. 624, 625.

17. O Armagedom como consequência da Primeira Guerra Mundial: Santificado Seja, ps. 306, 307; Cumprir-se-á Então, p. 267, 276.

18. Destruição das nações gentias em 1914: Sentinela, 15/2/75, p. 123; Aproximou-se Reino, p. 188.

19. Fim da cegueira espiritual dos judeus, e Jerusalém não mais pisada pelos gentios a começar em 1914: Studies (Millenial Dawn) – II, p. 77,* edição de 1904.

20. Reino estabelecido em 1915: The Finished, p. 128*; StudiesIV, p. 624, 625; Light, p. 195.*

21. Passagem de Russell para “além do véu” (ida para o Céu) quando de sua morte, em 1916, onde se teria posto a dirigir a obra da “Ceifa”: The Fihished, p. 144,* 420; Los Testigos de Jehová en el Propósito Divino, p. 63, 64. Obs.: Cria-se, então, que a ressurreição invisível dos salvos começara em 1878. Em 1927, concluiu-se que somente tivera lugar desde 1918 (Paraíso Perdido, p. 192). Teria Russell chegado ao céu antes da hora?

22. Glorificação do “remanescente” em 1918: Próxima Salvação, p. 131. Obs.: A ideia é de glorificação literal, nova expectativa de irem para o Céu após os desapontamentos de 1878, 1914 e 1915. Atualmente, 1918 é aplicado ao início da ressurreição “invisível” da “classe ungida” de 144.000 membros.

23. Igrejas destruídas por atacado e membros da cristandade mortos aos milhões [cf. Ez 24:25, 26] em 1918: The Finished, p. 485.*

24. Russell, “sinal” para os que consultarem seus livros (10 milhões espalhados pelo mundo) após a mortandade de 1918 [cf. Ez 24:27]: The Finished, p. 485.*

25. Russell, cumprimento de Ezequiel 9:4-11; 10:1-7 e outras profecias: Cumprir-se-á Então, p. 110, 111. Obs.: Aplicação agora aos 144.000 ungidos: Cumprir-se-á Então, p. 113.

26. Sete trovões e sete pragas (Ap 16) – os 7 volumes de Studies in the Scriptures: The Finished, p. 167.*

27. “Colheita” concluída em 1919. Pela frente só “obra de respiga”: Paraíso Restabelecido, p. 159, 160.

28. Repúblicas mundiais totalmente subvertidas entre 1917 e 1920, especialmente 1920: The Finished, p. 258.*

29. Fechamento do caminho celestial (tempo de graça) em 1921: The Finished, p. 64.*

30. Ressurreição, em 1925, dos heróis de Hebreus 11: Milhões Agora, p. 110,* 111,* 122*; The Way, p. 224,* 228*; Salvação, p. 275,* 276.* Obs.: Em Salvação, há menção a Beth-Sarim, casa para morada dos “príncipes” ressurretos (depois de 1925). Ver foto da casa na p. 275* [Est. nº 3, Subt. III, §§ 7 e 8].

31. Reino estabelecido na Palestina em 1925: The Finished, p. 128*; Milhões Agora, p. 110,* 111,* 122*; The Way, p. 224,* 228.*

32. Ressurreição geral a partir de 1925 com intervenção dos “príncipes”: The Way, p. 226,* 232*; Anuário... 1976, p. 217, 146.

33. Deus retorna judeus à Palestina quando da ressurreição e restauração do Reino em 1925: The Way, p. 224.*

34. Jerusalém, capital do mundo no Reino restaurado (1925): The Way, p. 224.*

35. Nenhuma morte após 1925. Decoradores funerários devem arranjar novas ocupações: The Way, p. 228* (cf. 224*).

36. Após falha das predições sobre 1925, novas interpretações sobre o retorno dos judeus: Vida, p. 163, 172, 173-175; Próxima Salvação, p. 130; Clímax Próximo, p. 118; Proclamadores do Reino, p. 141.

37. Predição de Rutherford (cerca de 1937): nazistas invadiriam a Suíça e a dominariam na Segunda Guerra Mundial: O Juiz Rutherford Expõe a Quinta Coluna, p. 15.* Obs.: Livreto editado em julho de 1940.

38. Predição de Rutherford (1938): nazistas destruiriam o Império Britânico: O Juiz Rutherford Expõe a Quinta Coluna, p. 15.*

39. Predição de Rutherford (1938): ditadores aliados à hierarquia católica se apoderarariam “do domínio de quasi [sic] todas as nações, se não for de todas”, dominando-as por pouco tempo: O Juiz Rutherford Expõe a Quinta Coluna, p. 15.* Obs.: Isso em conexão com a II Guerra Mundial.

40. Predição de Rutherford: tempo de angústia e Armagedom em resultado direto da Segunda Guerra Mundial: O Juiz Rutherford Expõe a Quinta Coluna, p. 16.*

41. Predição de Rutherford: desmascaramento do catolicismo no Armagedom, logo após a Segunda Guerra Mundial: O Juiz Rutherford Expõe a Quinta Coluna, p. 17, 22.

42. Começa o milênio, outubro de 1975: comparar Vida Eterna, p. 28, 29, 20, 357; Seja Deus (ed. 1949), p. 174, 175; Novos Céus, p. 374; Caiu Babilônia, p. 218; Sentinela, 1º/5/1973, p. 244.

43. Restituição completada em 2875 d.C.: The Finished, p. 60. Obs.: Embora essa data seja futura, não é preciso esperar para que se confirme. Foi estabelecida com base nas medidas da pirâmide de Gizé e, logicamente, não é mais considerada corretas pelas “testemunhas” em nossos dias. O segundo dirigente da Sociedade Torre de Vigia, o “juiz” Rutherford, concluiu serem “ímpios” os que persistissem crendo na teoria de profecias estabelecidas por medidas da grande pirâmide egípcia (ideia advogada pelo fundador da Sociedade, Charles Russell, e ensinada com convicção por 35 anos) – ver Light, Livro 1, p. 12.*

44. Queda de Adão em 4.127 a.C.: The Finished, p. 64.*

45. Data da criação do primeiro homem, 4.025 a.C.: Equipado Para Toda Boa Obra, p. 143; Novos Céus, p. 379. Obs.: A data atualmente admitida é 4.026 a.C.

46. Data a partir da qual calcular os 2.520 “dias proféticos” (606 a.C.): Light, Livro 1, p. 195*; Vida, p. 107. Obs.: A data atualmente admitida é 607 a.C.

47. Os 1.260 dias de Ap 12:6, 14 – tempo de duração da guerra no Céu: Novos Céus, p. 219.

48. Os 1.260 dias: período que vai de março de 1919 a setembro de 1922 (cf. Ap 11:1-3): Próximo Reino, p. 312, 313.

49. Os 1.260 dias: período que vai de meados de novembro de 1914 a maio de 1918 (cf. Ap 11:1-3): Seja Feita, p. 166. Obs.: Atual interpretação para os 1.260 dias:
a) Ap 11:2 e 3 aplica-se ao período de 4/5 de outubro de 1914 a 27 de março de 1918: Cumprir-se-á Então, p. 262, 264, 332.
b) Nova interpretação (em separado) para Ap 12:6, 14: tempo que vai de 13/14 de abril de 1919 a 4/5 de outubro de 1922: Cumprir-se-á Então, p. 315, 316.

50. As 2.300 “tardes e manhãs” de Dn 8:14 – período de 25/5/1926 a 15/10/1932: Seja Feita, p. 198, § 44. Obs.: Contrastar com o Anuário das Testemunhas de Jeová de 1976, p. 247, onde o mesmo tempo profético torna-se de 1º a 15 de junho de 1938 a 8-22 de outubro de 1944.

Conclusão: Apesar disso tudo, a Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados reivindica ser uma entidade teocrática, ou seja, diretamente dirigida por Deus, representando o “carro antitípico de Jeová” (Ez 1), o servo ao qual o Senhor confiou Seus bens (Mt 24:45-47), o Israel espiritual, o exclusivo canal para a transmissão da verdade divina, etc. Seus livros são referidos como instrumentos de advertência e desmascaramento dos erros e hipocrisia da cristandade.

III – Luz progressiva ou “pisca-pisca”?

1. No caso das alterações doutrinárias frequentes, a passagem de Provérbios 4:18 sobre a “vereda do justo” comparada à “luz da aurora que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito” não pode ser aplicada. Deus não enviaria novas luzes para contradizer aquelas anteriormente concedidas por Ele mesmo.

2. O contexto de Provérbios 4:18 indica que o tema não é progresso de conhecimento e aprimoramento doutrinário de entidades religiosas, mas o despertar do indivíduo para a vida adulta, avançando intelectual e moralmente ao acolher as recomendações dos mais velhos, especialmente dos pais, em contraste com a atitude do ímpio.

3. Exemplo de “luz progressiva” que mais se parece com um “pisca-pisca” é a interpretação sobre as “autoridades superiores” de Romanos 13. Segundo Seja Deus, p. 241, 242 e Certificai-vos (ed. 1960), p. 55, referem-se somente a Jeová e Jesus Cristo, não aos governos humanos. Mas os livros Certificai-vos (ed. 1970), p. 52, 53, e Vida Eterna, p. 199, 201, 203 (§ 29) já admitem que se referem aos governos terrestres, voltando à posição anterior e harmonizando-se com o pensamento histórico da “cristandade”. Obs.: No livro Verdade Tornará, ed. 1946, p. 315 e 316, há críticas aos que creem que as autoridades superiores sejam os governantes humanos. Declara ainda que “em 1929 irrompeu luz clara” sobre o assunto, confirmando que seriam apenas Jeová e Jesus Cristo. Assim, a “Sociedade” voltou atrás e readmitiu a interpretação anterior a 1929, que sempre foi a dos cristãos em geral, que não teriam a “verdade”. Que aconteceu? A luz que brilhava apagou-se e tornou a acender-se mais tarde? E permanecerá assim acesa? Ou existirá a possibilidade de alguma “nova luz” vir a alterar a interpretação? Tal indagação não é sem sentido, nem exagerada, pois isso já aconteceu no passado. Senão, vejamos:

4. Em resposta à pergunta “Os homens de Sodoma ressuscitarão?”, a “Sociedade” tomou as seguintes posições alternadas:


Sim: Watchtower [A Sentinela], jul., 1879, p. 8.
Sim: Watchtower [A Sentinela], 1º de agosto de 1965, p. 479.
Sim: Aid to Bible Understanding,* eds. de de 1969 e 1988, vb. “Gomorra”.

Não: Watchtower [A Sentinela], 1º de junho de 1952, p. 338.
Não: A Sentinela, 1º de junho de 1988, p. 30,  31.
Não: Clímax Próximo, edição de 1988, p. 273.

* Mais tarde, Insight on the Scriptures; em português: Estudo Perspicaz das Escrituras.

5. Entre 1967 e 1980, a Torre de Vigia ensinava que seus adeptos deveriam recusar os transplantes como violação da lei de Deus (cf. The Watchtower 15/11/67, p. 702-704). Outra de suas publicações até declarava que as “testemunhas” consideravam “todos os transplantes como canibalismo” (Awake [Despertai], 8/6/68, p. 21).

a) Eis os comentários de David Reed, que atuou no seio dessa organização contraditória:

 “Durante esses 13 anos, requeria-se das testemunhas de Jeová que preferissem a cegueira a um transplante de córnea, e morrer de preferência a submeter-se a um transplante de rins. (Um ex-ancião entrevistado na Inglaterra diz que renunciou a suas crenças após uma mulher em sua congregação ter ficado cega em obediência às ordens da organização). Em 1980, a Sociedade tornou os transplantes uma questão de ‘decisão pessoal’” (Watchtower, 15/3/80, p. 31). “E agora admite que as pessoas são ‘ajudadas’ por transplantes. Quão sábio é confiar o bem-estar espiritual de alguém a uma organização que tem representado mal a lei de Deus em tais questões de vida ou morte?” (Citado em Comments From the Friends, outubro de 1980, p. 9).
    
b) Sendo que a teologia e as interpretações proféticas da Torre de Vigia mudam tanto com o passar do tempo (muitas vezes terminando em harmonia com o pensamento dos cristãos em geral), quem garante que as atuais posições serão válidas dentro das próxima décadas?

c) Uma passagem bíblica que vale a pena considerar neste contexto é 1 João 4:1: “Amados, não acrediteis em toda expressão inspirada, mas provai as expressões inspiradas para ver se se originam de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo afora” (TNM).

quinta-feira, abril 28, 2016

O fim depende do começo

Harmonia impressionante
Existe relação entre os primeiros e os últimos capítulos do Livro sagrado do cristianismo? As evidências bíblicas e científicas confirmam a literalidade da semana da criação?    

[Este artigo foi escrito por meus alunos de pós-graduação Márcio Tonetti, Reisner Martins, Sueli Ferreira de Oliveira, Ulisses Arruda e Valter Cândido. - MB]

A crença de que a semana da criação narrada no primeiro livro da Bíblia representaria um período de longas eras (ou de milhões de anos, segundo a cronologia evolucionista) se popularizou no meio cristão. Uma forte evidência disso é que já existem igrejas nos Estados Unidos que anualmente participam das comemorações do dia dedicado a Darwin (12 de fevereiro). Embora continuem atribuindo a Deus a origem da vida no planeta, os adeptos da evolução teísta não veem os "dias" descritos nos primeiros capítulos de Gênesis como períodos de 24 horas.

O geneticista norte-americano Francis Collins, que coordenou o Projeto Genoma por mais de uma década, está entre os representantes dessa vertente. No livro A Linguagem de Deus (Gente, 2007), embora ele busque apresentar diversas evidências no campo da bioquímica e da genética de que Deus foi o designer inteligente originador da vida, ao fim da obra o cientista expressa sua convicção no fato de que a criação teria acontecido no decorrer de longas eras.

O casamento entre a fé cristã e a evolução foi tema de uma reportagem publicada na edição de março de 2009 da revista Superinteressante. Nela, o jornalista Reinaldo José Lopes considerou que essa tendência reflete a tentativa de "sobrevivência" da Igreja diante da popularidade das ideias propagadas pelo naturalista britânico Charles Darwin. Ele comentou que, ao longo dos últimos 150 anos, "algumas das denominações cristãs mais antigas, como a Igreja Católica e a Igreja Anglicana, acabaram decidindo que não dava para brigar com as descobertas feitas pela biologia evolutiva e passaram a interpretar os relatos da Bíblia sobre a criação do mundo como textos poéticos e alegóricos".

Lopes cita ainda que, em 2008, o Vaticano promoveu uma conferência para discutir o legado de Darwin, fazendo questão de lembrar que os livros do naturalista nunca foram oficialmente condenados pela igreja. Como lembra o autor, essa concepção continuou sendo defendida por João Paulo 2º que, em 1996, expressou que a teoria da evolução "é mais do que uma mera hipótese", e, mais recentemente, foi reforçada pelo papa Francisco que considerou a história de Adão e Eva uma fábula.

No meio evangélico, o Gênesis é interpretado de diferentes maneiras. No livro He Spoke And It Was, que em breve deve ser publicado em português pela CPB, o teólogo Richard Davidson menciona que uma posição evangélica simbólica comum é a que é chamada por alguns de "teoria concordista ampla", defendida por conciliadores liberais. Segundo essa concepção, os sete dias representam longos períodos, admitindo, assim, a evolução teísta.

No artigo "Dias literais ou períodos de tempo figurados?", publicado na edição nº 53 da Revista Criacionista, Gerhard F. Hasel procurou mostrar alguns dos argumentos mais representativos a favor dessa ideia de longas eras. Para o erudito britânico John C. L. Gibson, por exemplo, "Gênesis 1 deve ser tomado como uma 'metáfora', 'história' ou 'parábola', e não como um registro direto dos acontecimentos da criação". No entender de Gibson, "se entendermos 'dia' como equivalente a 'época' ou 'era', poderemos pôr a sequência da criação, apresentada no capítulo 1, em conexão com os relatos da moderna teoria da evolução, e assim caminhar um pouco no sentido da recuperação da reputação da Bíblia em nossa era científica" (The Daily Study Bible, v. 1, p. 56).

Hasel cita ainda que, em 1983, o comentarista alemão Hansjörg Bräumer afirmou: "O 'dia' da criação que é descrito como contendo 'manhã e tarde' (sic) não é uma unidade de tempo que possa ser determinada com um relógio. É um dia divino no qual mil anos são como o dia de ontem (Sl 90:4). O dia primeiro da criação é um dia divino. Não pode ser um dia terrestre, pois ainda está faltando a medida do tempo, o sol. Não ocasionará nenhum dano ao relato da criação, portanto, entendê-la dentro do ritmo de milhões de anos" (Das erst Buch Mose - Wuppertaler Studienbibel, p. 44).

Em seu livro He Spoke And It Was, Richard Davidson também menciona que vários estudiosos evangélicos falam do relato de Gênesis sobre a criação em termos de dias "analógicos" ou "antropomórficos". Essa compreensão parte do pressuposto de que "os dias são dias de trabalho de Deus, sua duração nem é especificada nem é importante, e nem tudo no relato precisa ser considerado historicamente sequencial".

Além daqueles que veem o(s) relato(s) de Gênesis como poesia, metáfora ou parábola, outra corrente teórica apresentada por Richard Davidson é a visão "progressista-criacionista" que, embora considere os seis dias literais, entende que cada dia abre um novo período criativo de criação indeterminada. Porém, como lembra Davidson, "comum a todos esses pontos de vista não literais é a suposição de que o relato das origens de Gênesis não é um relato histórico literal e direto da criação material" (p. 20).

Cabe observar, entretanto, que a argumentação de que o primeiro livro da Bíblia tem um caráter alegórico ou figurativo é bem mais antiga do que se imagina. Alguns estudiosos sustentam que ela é muito anterior à publicação do livro A Origem das Espécies, de Charles Darwin. Segundo Hasel, Orígenes de Alexandria é considerado o primeiro a entender os "dias" da criação no sentido alegórico, e não literal. Posteriormente, Agostinho, o mais famoso dos pais da Igreja latinos, também corroborou esse pensamento, o que mostra que essas interpretações já começavam a surgir no período medieval.

Contudo, Gerhard F. Hasel observa que nem Agostinho nem Orígenes tinham em mente qualquer conceito evolucionista. "Eles consideravam os 'dias' da criação como não literais com base em algo distinto – era obrigação filosófica atribuir a Deus atividade criadora sem qualquer relação com o tempo humano. Como os 'dias' da criação se relacionam com Deus, argumentava-se que esses 'dias' tinham de ser representativos de noções filosóficas associadas a Deus, tomadas as suas respectivas perspectivas", ele ressalta. Desse ponto de vista, como para os filósofos gregos Deus era atemporal, logo supunha-se que os dias da criação deveriam ser entendidos com base nessa lógica.

A influência exercida pela filosofia grega sobre a igreja, determinando interpretações figurativas do Gênesis, levanta um aspecto importante citado por Hasel: o de que "houve razões extra-bíblicas que levaram alguns intérpretes a se afastar do significado literal dos 'dias' da criação".

Para Hasel, tal como ocorreu no passado, "existe hoje também outra influência extra-bíblica que induz os intérpretes a alterar o que parece ser o claro significado dos 'dias' da criação. É uma hipótese científica baseada num ponto de vista naturalístico, a moderna teoria da evolução, que tem impulsionado essa alteração".

No entanto, para fugir de compreensões equivocadas, é preciso voltar à Bíblia e interpretá-la corretamente. Como lembra o autor do artigo publicado na Revista Criacionista, Martinho Lutero, considerado o pai da Reforma Protestante, consistentemente, defendeu a interpretação literal do relato da criação ao afirmar que "Moisés falou no sentido literal, e não alegórica ou figurativamente, isto é, que o mundo, com todas as suas criaturas, foi criado em seis dias, como se lê no texto".              

Sendo assim, quais as evidências bíblicas e científicas que confirmam a historicidade do primeiro livro da Bíblia? No livro Estudos sobre Criacionismo, o primeiro sobre o tema produzido pela Casa Publicadora Brasileira na década de 1950, Frank Lewis Marsh sustenta que "em qualquer lugar em que o registro bíblico é tão claramente expresso como em Gênesis 1, nenhum conflito existe entre as declarações da Escritura e os fatos científicos demonstrados" (p. 182).

Um dos fatos que devem ser levados em conta é que, conforme Richard Davidson, o gênero literário de Gênesis 1-11 aponta para a natureza histórica literal do relato da criação (He Spoke And It Was, p. 20). Também na obra Genesis 1:1-11:26, Kenneth Mathews (1996, p. 109) desenvolve essa ideia mostrando que tanto o gênero "parábola", uma ilustração tirada da experiência diária, quanto o gênero "visão" se encaixam no texto bíblico, pelo fato de não conter o típico preâmbulo e outros elementos que acompanham as visões bíblicas.

Desconstruindo o argumento daqueles que, com base em paralelos do antigo Oriente Próximo, veem o relato bíblico das origens como uma narrativa mitológica, Richard Davidson sustenta: "A realidade é que o relato de Gênesis contrasta fortemente com outros relatos do antigo Oriente Próximo e egípcios, de forma que existe uma pretensa polêmica ou discussão contra esses mitos" (p. 8). Uma das diferenças é que, nessas culturas, as divindades sempre criam a partir da matéria pré-existente. Nas cosmologias egípcias, por exemplo, "tudo está contido dentro do Mônode inerte, até mesmo o Deus criador" (p. 2).

Em contrapartida, em toda a Bíblia (a começar pelo primeiro verso de Gênesis), o verbo especial para "criar" (bara) só tem Deus como sujeito. "Isso está na língua hebraica – ninguém-pode-bara ou 'criar', a não ser Deus. Só Deus é o Criador, e ninguém mais pode partilhar essa atividade especial. O verbo bara nunca é empregado para a matéria ou material a partir do qual Deus cria; ele contém, juntamente com a ênfase da frase 'no princípio', a ideia de criação a partir do nada (ex nihilo creatio)" (p. 2).

John Sailhamer, outro estudioso do assunto, também concluiu na obra Genesis Unbound: A Provocative New Look at the Creation Account (1996, p. 244) que existem grandes diferenças literárias entre o estilo dos mitos do antigo Oriente Próximo e as narrativas bíblicas da criação em Gênesis 1 e 2. Um exemplo disso é que, se, de um lado, todas as narrativas mitológicas da época foram escritas em poesia, de outro, o relato bíblico da criação foi registrado em prosa.

Assim, na ótica desses autores, não há qualquer pista de literatura metafórica ou meta-histórica no Gênesis. Ao contrário disso, se percebe que intencionalmente a estrutura literária desse livro da Bíblia como um todo assume a natureza literal das narrativas da criação.

Cabe ainda mencionar que todo o livro de Gênesis está estruturado segundo a palavra hebraica toledot (gerações, história), repetida treze vezes ao longo das diversas seções do livro. Em outros trechos da Bíblia, esse termo é usado no registro das genealogias, marcando a contagem precisa do tempo.

Outra forte evidência de que Moisés estava se referindo a dias de 24 horas é o uso da palavra hebraica yom (dia). As ocorrências desse termo na conclusão de cada um dos seis dias da criação de Gênesis 1 estão todas conectadas a um numeral ordinal (“primeiro dia”, “segundo dia”, “terceiro dia”, etc.). Uma comparação com as ocorrências do termo em outros lugares da Escritura (359 vezes) revela que tal uso sempre é feito com dias literais.

No livro Estudos Sobre Criacionismo (CPB), um clássico da literatura criacionista que ainda permanece bastante relevante na época atual, Frank Lewis Marsh acrescenta que a ideia de que yom (dia) significa um período de tempo maior do que 24 horas não encontra comprovante nos dicionários hebraicos de renome. "A interpretação de yom como aeon, fonte favorita para os harmonizadores de ciência e revelação, é oposta ao claro sentido da passagem e não tem justificação no uso hebraico" (p. 12).

Além disso, a frase “tarde e manhã”, que aparece na conclusão de cada um dos seis dias de criação, define claramente a natureza dos dias da criação como dias literais de 24 horas. Ressalte-se também que as referências à “tarde e manhã” juntas em outros pontos além de Gênesis 1, invariavelmente, nas 57 vezes em que aparecem no Antigo Testamento, indicam um dia solar literal. Marsh argumenta que o fato de cada dia mencionado no relato bíblico ser composto por um período de luz e de trevas "está em perfeita conformidade com o método do registro de tempo no período mosaico" (p. 179).

Outro ponto a ser considerado é a correlação entre a semana de trabalho da humanidade com a semana de trabalho da divindade. Em Êxodo 20:8, no mandamento do sábado, há uma explícita comparação entre os seis dias da semana de trabalho da humanidade e a semana de seis dias da criação divina. Posteriormente, o sábado a ser observado pelos seres humanos a cada semana é igualado ao primeiro sábado após a semana da criação. Assim, o divino Legislador inequivocamente interpreta a primeira semana como literal, composta de sete dias consecutivos e contíguos de 24 horas literais.

É pertinente também fazer referência ao endosso feito por Jesus e por todos os escritores do Novo Testamento. Cristo e esses autores recorrem a Gênesis 1-11, tendo como pressuposto que essa é uma história literal e confiável. Todos os capítulos de Gênesis 1-11 são referidos em alguma parte do Novo Testamento. O próprio Jesus recorreu a Gênesis 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7.

Em diversas passagens do Novo Testamento, implícita e/ou explicitamente há menção do livro de Gênesis. Em seu artigo “A Criação no Novo Testamento”, publicado no periódico Ciências das Origens, de maio de 2005, o Dr. Ekkerhardt Mueller menciona algumas dessas passagens: "As palavras de Jesus tal como estão registradas nos quatro evangelhos canônicos contêm dez referências à criação. Jesus não somente fez referência a Gênesis 1 e 2. Em Seus discursos também encontramos pessoas – Abel (Mateus 22:35) e Noé (Mateus 24:37-39; Lucas 17:26-27) – e acontecimentos – o dilúvio (Mateus 24:39) – que ocorrem em Gênesis 3-11. Quando lemos essas breves passagens, obtemos a clara impressão de que, segundo Jesus, Noé e Abel não foram figuras mitológicas, mas verdadeiras pessoas humanas, que Gênesis 3-11 é uma narrativa histórica que não deve ser entendida simbolicamente, e que o dilúvio foi um evento global que realmente ocorreu (Gênesis 6:8). Portanto, é de se esperar que Jesus utilizasse o mesmo enfoque sobre a interpretação bíblica quando se referiu à criação. E isso é exatamente o que encontramos nos evangelhos.”

Somado a tudo isso, Frank Lewis Marsh acrescenta em seu livro outras duas boas razões para concluirmos que os dias da semana da criação foram literais. Como explicar, por exemplo, pela ótica da evolução teísta, a relação das plantas com o período escuro? "No terceiro dia todas as espécies de plantas apareceram, as que produziam flores e sementes, bem como as formas mais simples. Evidentemente, se este 'dia' fosse um período de tempo geológico, todas as plantas teriam perecido durante esses milhões de anos de escuridão, antes que a luz do quarto dia iluminasse o mundo" (Estudos Sobre Criacionismo, p. 179, 180).

Raciocínio semelhante se aplica à dependência entre plantas e animais. Conforme o primeiro capítulo de Gênesis, as plantas foram criadas no terceiro dia, porém nenhum animal veio à existência antes do quinto dia. Uma vez que a dependência entre plantas e animais é um fato muito evidente no mundo dos seres vivos, seria ilógico imaginar que longas eras separam esses dois momentos da criação. "Para ilustrar, só em matéria de polinização, multidões de plantas não se reproduziriam sem a colaboração dos insetos. Contudo, o registro declara que as plantas com semente se reproduziam desde o princípio. Isso não podia ser assim se os insetos não tivessem aparecido senão 20 ou 40 milhões de anos mais tarde, como sucederia se os dias fossem períodos geológicos" (p. 180).  

A criação literal e a teologia bíblica

A negação da crença na criação em seis dias de 24 horas contraria o caráter de Deus. "Que tipo de Deus teria criado a vida por meio da morte e de extinções ao longo de milhões de anos? Certamente, não o Deus que percebe quando uma ave cai no chão", questiona o ex-evolucionista Michelson Borges, jornalista e mestre em Teologia que hoje defende a visão criacionista.

Para ele, endossar esse "método" implica negar o fato de que, segundo a Bíblia, a morte entrou no mundo por causa do pecado (Rm 5:12; 6:23). Na ótica do evolucionismo teísta, no entanto, a morte é o meio para que ocorra o progresso das criaturas.

Borges, que é autor dos livros A História da Vida e Por Que Creio, lembra também que tal crença tira de vista a doutrina da salvação. Afinal, "se a humanidade tem evoluído durante milhões de anos e está sempre evoluindo, por que precisamos de um Salvador?" E mais: a própria promessa feita em Gênesis 3:15, considerada a primeira profecia messiânica das Escrituras, deixa de fazer sentido.

Do mesmo modo, outras verdades bíblicas são seriamente comprometidas, como a guarda do sábado (o sétimo dia), as bases do matrimônio (a definição do que é o casamento passa a ser definida pela cultura), a remissão da humanidade (remir de quê?), a necessidade de salvação, a ideia de um juízo e, finalmente, a esperança na segunda vinda de Cristo. Todas essas doutrinas dependem da interpretação literal das origens. Sem isso, elas podem parecer vulneráveis e pôr em risco a confiabilidade de todo o conteúdo das Escrituras Sagradas e até mesmo a onipotência de Deus. Por que seria necessário tornar “humanamente” viável ou compreensível a criação? Quem teria interesse nisso? Por que não podemos absorver como isso aconteceu, então não pode ter de fato acontecido? “Eu Te louvarei, porque de um modo assombroso, e tão maravilhoso fui feito; maravilhosas são as Tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem” (Sl 139:14).

Ao mostrar quão problemática é a tentativa de misturar a visão evolucionista com o criacionismo bíblico, Richard Davidson ressalta: "No fluxo canônico geral das Escrituras, por causa da ligação inseparável entre a origem (Gn 1-3) e o fim dos tempos (Ap 20-22), sem um começo literal, não há um fim literal" (p. 19). Ou seja, se o início da história da humanidade é apresentado na Bíblia de maneira alegórica, de igual forma seria seu fim, o que significaria que a volta de Cristo não se daria como nós, adventistas, acreditamos e pregamos.

As três mensagens angélicas de Apocalipse 14:6-12 são o fundamento dessa igreja. A primeira delas, trata da pregação do evangelho eterno, que nos convida a adorar “Aquele que fez os céus, a terra, o mar e as fontes das águas” (Ap 14:7). No limiar da história da humanidade, o povo é convocado a se lembrar do Deus Criador. Essa convocação é uma clara defesa ao efervescente crescimento de teorias que anulam ou minimizam a atuação de uma mente inteligente por trás da formação do mundo.

A Igreja Adventista tem sido reconhecida como uma das guardiãs dessa verdade bíblica. Eduardo R. da Cruz, que não professa essa fé, em seu livro Teologia e Ciências Naturais, afirma que “uma das denominações mais importantes no desenvolvimento do criacionismo foi (e ainda é) a Igreja Adventista do Sétimo Dia. [...] Enfatizando a leitura literal da Bíblia (base para sua afirmação de que o sábado seria o verdadeiro dia de repouso ordenado por Deus). Ellen White e outros fundadores afirmaram que o mundo teria sido criado em seis dias literais”.

Embora, como observou Reinaldo José Lopes na revista Superinteressante, alguns grupos, como as denominações evangélicas surgidas do século 19 em diante, tenham insistido "na verdade literal das Escrituras Sagradas, considerando-as fontes confiáveis não só para temas espirituais mas também científicos", hoje são raras as denominações que ainda defendem esse ponto de vista. Como adventistas, somos praticamente uma voz isolada nesse universo de teologias controvertidas, cada vez mais diluídas no naturalismo filosófico. E não devemos perder de vista nossa missão de anunciar ao mundo o iminente retorno daquele que fez o céu, a terra e as fontes das águas.

Como aconselhou Gleason Archer, professor na Universidade Harvard que é considerado uma autoridade entre os eruditos do Antigo Testamento, ao teólogo adventista Richard Davidson após ter participado de um Encontro Anual da Sociedade Evangélica: "Vocês adventistas do sétimo dia são a única denominação que corajosa e oficialmente afirma as verdades bíblicas da origem da Terra. Por favor, não abandonem seu forte posicionamento em favor da semana da criação em sete dias literais e de um dilúvio global." Assim faremos!

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