terça-feira, julho 04, 2017

O calendário lunar e a guarda do sábado

Será que guardamos o sábado correto?
Irmão Michelson, não sou adventista nem guardo o dia literal de sábado, mas entendo que pela contagem de dias do sistema do nosso calendário ocidental não tem como literalmente guardar o dia de sábado corretamente, até porque cada sábado da semana, na maioria das vezes, não corresponde ao sábado que Deus instituiu pelo calendário hebreu. Ou seja, vocês guardam o sábado achando que sempre guardam os sábados, mas, na verdade, guardam também domingos, segundas, terças, quartas, quintas e sextas. Cada mês do calendário hebreu começa na lua nova, e cada mês tem somente 29 dias. Não entendo que guardar o sábado na nova aliança de Cristo, que é o Senhor do sábado (Ele é o nosso Shabbat), que fez o sábado “para o homem” (pois assim está escrito em Marcos 2:27), seja da mesma forma que guardar o sábado na antiga aliança. Tudo se cumpre em Cristo, não em nossos esforços. A verdade e a Palavra acima de tudo e de todos, ainda que elas nos aborreçam! Sei que é difícil largar nossas crenças a favor da verdade... mas elas não podem ser mais importantes que Aquele que é a própria verdade. Amém?! Deus te abençoe! – F.

Resposta:

Prezado F., a pedido do amigo Michelson Borges, tenho o prazer de responder a sua pergunta. Realmente, toda a verdade deriva de uma pessoa divina, Jesus Cristo. Ele é a própria verdade e devemos seguir Seu exemplo e Seus ensinamentos. Sua dúvida é interessante e vou tentar respondê-la de forma bastante sucinta, lembrando que basta algum conhecimento de história e uma boa pesquisa sobre como funcionam os diferentes calendários pode resolvê-la. Não sei se você sabe, mas há registro de que mais de 70 calendários diferentes já foram usados no mundo! Alguns deles ainda são adotados pelo mundo hoje, em diferentes países ou por diferentes religiões. O interessante é que a maioria absoluta desses calendários em uso ou em desuso emprega uma semana de sete dias que não depende do ciclo mensal. Uma pesquisa feita pelo bispo episcopal William Meade Jones no século 19 revelou que em 160 idiomas diferentes o sétimo dia da semana tem uma aproximação linguística muito nítida com a palavra hebraica shabbath, empregada na Bíblia. Em todas essas culturas o sábado é o sétimo dia da semana.

A dúvida que você expressou surgiu no século 19, quando Franz Delitzsch, um estudioso da língua hebraica, propôs uma teoria para explicar o surgimento do sábado. Na época, estava em moda entre muitos teólogos questionar a historicidade do relato bíblico. Os teólogos liberais diziam que a maioria dos textos bíblicos do Antigo Testamento foi escrita pouco antes ou pouco depois do exílio babilônico e que não era um relato fiel da história. Alguns desses teólogos acreditavam que a religião hebraica havia evoluído do politeísmo mágico para um monoteísmo ético por volta desse tempo.

Delitzsch inventou a teoria de que a guarda do sábado foi aprendida pelos judeus com os babilônios. Acontece que no mês babilônico havia alguns “dias de azar”, em que determinadas atividades deviam ser evitadas para não atrair maus agouros. Esses dias eram datas fixas no mês. Como estavam dispostos em intervalos que variavam entre cinco e dez dias, Delitzsch imaginou que esses dias de azar deram origem ao sábado bíblico.

Acontece que a teoria de Delitzsch para o surgimento do sábado semanal caiu em descrédito diante das descobertas arqueológicas. Calendários hebraicos pré-exílicos foram descobertos, evidenciando que os israelitas já tinham uma semana de sete dias que independia do ciclo lunar mensal. A lua nova podia cair em qualquer dia da semana, os dias do mês variavam na semana, e todas as festas israelitas eram em datas móveis em relação aos dias da semana e fixas em relação aos dias do mês. A importância do calendário israelita para a religião deixou muitos registros escritos, de uma forma que hoje é possível calcular com incrível precisão em que dia da semana e do mês israelita determinado evento histórico aconteceu, além de ser possível a conversão das datas do calendário israelita antigo para os calendários gregoriano ou juliano. Há inclusive programas de computador que fazem esses cálculos. A história tem confirmado que as palavras da Bíblia são um relato preciso do que realmente aconteceu. Portanto, o sábado bíblico é o sétimo dia de um ciclo semanal que remonta à criação do mundo (Gn 2:1-3; Êx 16; 20:8-11) e não depende do dia do mês.

É interessante que os únicos calendários em que o ciclo da semana depende do ciclo do mês foram os calendários da Revolução Francesa (semana de dez dias) e o calendário adotado na União Soviética na década de 1930 (semana de seis dias). Ambos os calendários foram criados por governos ateus com o claro propósito de ocultar os dias de guarda das religiões judaica e cristã. Vale lembrar que ambos os calendários vigoraram por breve tempo e não contaram com a aceitação do povo.

Judeus e alguns grupos cristãos têm guardado o sábado desde os tempos bíblicos. É incrível como esses grupos de religiosos, muitos dos quais permaneceram séculos sem contato uns com os outros, nunca perderam a contagem do sábado do sétimo dia! Cristãos sabatistas na Índia, na Armênia, na Rússia, na Etiópia e na Europa Central guardaram o sábado desde os primeiros séculos da era cristã, sempre no mesmo dia da semana, apesar de um grupo não ter contato um com o outro. Judeus chineses permaneceram até o século 19 sem contato com outros judeus, mas observavam o mesmo sábado do sétimo dia de um ciclo semanal, o mesmo dia que, no final do século 20, descobriu-se que o povo sul-africano lemba observava havia mais de mil anos sem contato com outros povos observadores do sábado. E note que esses grupos viveram cada um em uma cultura em que se usava um calendário civil diferente, mas todos guardavam o mesmo sábado do sétimo dia.

Portanto, irmão F., o argumento de que o sábado nos tempos bíblicos era uma data mensal não conta com nenhum fundamento. Vale lembrar que o calendário gregoriano, criado no século 16, não alterou o ciclo semanal observado pela igreja desde os tempos apostólicos e coincidente com o ciclo semanal de outros calendários. Da mesma forma, há evidências mais que suficientes de que as reformas a que o calendário israelita se submeteu até hoje só ajustaram o complicado esquema lunissolar; nunca afetaram o ciclo semanal, que sempre foi independente dos dias do mês.

Portanto, os adventistas do sétimo dia e vários outros cristãos de outras igrejas que guardam o sábado fazem-no com a segurança histórica de que observam como santo o mesmo dia que Jesus Cristo, Paulo, os apóstolos e Maria, mãe de Jesus, guardaram, segundo o Novo Testamento. O mesmo dia de um ciclo que vem desde a criação do mundo. Um dia que, independentemente do calendário adotado, é o sétimo dia da semana.

Há uma interessante matéria sobre o assunto que escrevi para o blog do amigo Michelson há alguns anos. Ela pode ser acessada aqui. Também recomendo muito os livros Do Sábado Para o Domingo e O Sábado na Bíblia.

Não sei se você sabe, mas os adventistas do sétimo dia guardam o sábado como um sinal da aliança da graça. Assim como o pecador precisa cessar suas próprias obras e descansar na graça de Cristo, o sábado é um símbolo real que lembra ao cristão que, quando ele interrompe suas obras semanais e descansa no sétimo dia, vive uma extensão prática da fé na graça de Deus, confiando que o mesmo Cristo que pode suprir a salvação para um pecador que não tem como trabalhar mais pela sua própria salvação, também supre com o sustento para essa vida material quem entrega sua vida para Deus e nEle descansa. Ao ler Hebreus 4, você perceberá como no Novo Testamento o sábado é apresentado como sinal de nosso descanso em Cristo.

Espero ter respondido a sua dúvida e incentivo você a conhecer melhor o sábado na Bíblia e a confiança que o Espírito de Deus o guiará a um compromisso maior com o Mestre Jesus Cristo.

De seu irmão em Cristo, Fernando Dias.



quarta-feira, janeiro 04, 2017

Mais considerações sobre o dia longo de Josué

Em complemento à resposta dada à pergunta sobre o dia longo de Josué (confira aqui), seguem abaixo mais dois comentários, do geólogo Marcos Natal de Souza e do astrofísico Eduardo Lutz:

“A Bíblia é a palavra inspirada de Deus e fonte de toda a verdade, entretanto, foi escrita por homens de culturas diferentes, com conhecimentos diferentes e em épocas também diferentes, num período de mais de 3.500 anos. Essa linguagem poderia conter ‘erros’, uma vez que o conhecimento humano acerca da natureza esteve sempre em mudança. Entretanto, não seriam erros no sentido estricto, mas formas diferentes de entender o mundo que nos rodeia. Esse conhecimento acerca do mundo e de como ele funciona foi diferente para Abrahão, Moisés, Josué, Davi, Josias, Paulo e outros. Entretanto, essa linguagem humana transmitia uma mensagem muito superior, de índole puramente religiosa, esta, sim, imutável, pois a Palavra de Deus não muda. Para que Deus pudesse Se comunicar com o ser humano Ele teria que se expressar na linguagem e na cultura humanas, caso contrário, não seria entendido e a Bíblia se tornaria um livro de acesso somente aos ‘iniciados’, mas esse não é o objetivo da Bíblia. Voltando ao caso de Josué, alguma coisa sobrenatural realmente aconteceu. Do ponto de vista de um observador na Terra, o Sol realmente se deteve e voltou a se movimentar lentamente até o fim do dia, o que sugere uma visão de mundo geocêntrica. Se não foi o Sol que parou, foi a Terra que deixou de girar. Se isso acontecesse naturalmente, ou seja, se a Terra parasse de girar de forma repentina, é provável que toda a vida teria sido extinta. Afinal, a velocidade de rotação, por exemplo, em Brasília, é da ordem de 1.600 km/h. Qualquer pessoa ou coisa nesse paralelo seria arremessada tangencialmente para a atmosfera a essa velocidade. Uma catástrofe sem dimensões! Nesse caso, prefiro aceitar pela fé que Deus operou um grande milagre, como tantos outros” (Dr. Marcos Natal de Souza).

“A rigor, se a Terra para de girar, é tecnicamente correto dizer que o Sol para no céu. E isso não é Relatividade. Já se usavam diferentes referenciais na teoria de Newton também. Considerar a Terra como parada e o resto do Universo como girando ao redor é um referencial possível e até utilizado na prática, dependendo da aplicação. Não é tecnicamente errado fazer isso. O problema é que esse não é um referencial inercial e faz com que as leis físicas pareçam muito mais complexas do que o necessário. Por isso, em geral, os físicos usam outros referenciais. Também trabalhamos com abordagens independentes de referenciais. Na Relatividade, por exemplo, podemos usar uma notação da Geometria Diferencial que independe de referenciais, mas normalmente preferimos trabalhar com referenciais que simplifiquem os cálculos, após provar que as equações utilizadas são válidas em todos os referenciais. Outro detalhe: se frearmos um carro bruscamente, sentimos os efeitos da aceleração. Se o carro bater, a aceleração (taxa de alteração de velocidade) é tão alta que tem efeitos catastróficos. Mas, se pararmos um carro por meio de um campo gravitacional, ninguém nota. Se Deus parou a rotação da Terra por meio de um campo gravitacional bem planejado, isso não causaria qualquer efeito observável na Terra. Em suma, quando Josué diz que o Sol parou, está tecnicamente correto, pois o referencial usado era obviamente o do ambiente dele, ou seja, da superfície da Terra” (Eduardo Lutz).

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