terça-feira, dezembro 13, 2005

Não somos deuses

Aqueles que acreditam que o ser humano pode se tornar um deus citam o Salmo 82:6 para fundamentar tal crença. Qual o sentido deste verso? – F

Caro F., creio que a resposta dada pelo professor de teologia Dr. Alberto Timm à pergunta semelhante, na edição de setembro/2002, da revista Sinais dos Tempos, lhe será esclarecedora:

“O diálogo entre Jesus e os judeus narrado em João 10:22-42 ocorreu em Jerusalém por ocasião da Festa de Dedicação, instituída no período intertestamentário por Judas Macabeus (I Macabeus 4:36-59). Indagado a respeito de quem Ele era, Jesus confirmou Sua messianidade, Sua capacidade de conceder ‘vida eterna’ e Sua unidade essencial com o Pai (João 10:24-30). Mas os judeus, além de não aceitarem as prerrogativas de Cristo, planejavam apedrejá-Lo por blasfêmia (cf. Lev. 24:16), pois para eles Jesus era um mero ser humano que alegava ser Deus (João 10:33). Em Sua defesa, Jesus declarou que se até mesmo ‘aqueles a quem foi dirigida a Palavra de Deus’ no Antigo Testamento foram chamados de ‘deuses’, muito mais tinha Ele o direito de Se considerar ‘Filho de Deus’ (João 10:34-38).

“’Eu disse: sois deuses’ (João 10:34) são as palavras iniciais do Salmo 82:6, onde lemos: ‘Eu disse: sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo.’ No Antigo Testamento, o substantivo hebraico elohim é usado para designar tanto o verdadeiro ‘Deus’ (Gên. 1:1, 26, 27) como os falsos ‘deuses’ (Êxo. 12:12; 18:11; Sal. 97:7). Mas no Salmo 82:6 o termo ‘deuses’ refere-se aos ‘filhos do Altíssimo’, não podendo, portanto, designar falsos deuses ou ser considerado simplesmente uma expressão irônica.

“A tentativa de interpretar os ‘deuses’ do Salmo 82:6 como anjos celestiais ou outros seres perfeitos não é sancionada pelo contexto, que os descreve como ‘homens’ passivos de morte (Sal. 82:7), atuando como juízes injustos na Terra (Sal. 82:2-4). Também não podem ser anjos caídos, pois estes já estão destinados à condenação no Juízo Final (Jud. 6), não podendo mais reverter sua condição depravada, em resposta ao apelo do Salmo 82:3 e 4: ‘Fazei justiça ao fraco e ao órfão, procedei retamente para com o aflito e o desamparado. Socorrei o fraco e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios.’

“Não podendo ser falsos deuses, anjos celestiais, outros seres perfeitos ou mesmo anjos caídos, os ‘deuses’ mencionados no Salmo 82:6 só podem ser seres humanos constituídos como juízes entre o povo de Deus, mas atuando de forma injusta nos dias de Asafe (autor do Salmo 82). Essa interpretação é corroborada pelo próprio Cristo, ao identificá-los com ‘aqueles a quem foi dirigida a palavra de Deus’ (João 10:35). Ou seja, a eles haviam sido confiados os oráculos divinos, a fim de os transmitirem com imparcialidade e justiça aos seus contemporâneos.

“Além do Salmo 82:6, há no Antigo Testamento pelo menos duas outras ocasiões em que mensageiros de Deus foram descritos explicitamente como exercendo suas funções com prerrogativas divinas. Em Êxodo 4:16, Deus disse a Moisés: ‘Ele [Arão] falará por ti ao povo [de Israel]; ele te será por boca, e tu lhe serás por Deus.’ Em Êxodo 7:1, Deus disse novamente a Moisés: ‘Vê que te constituí como Deus sobre faraó, e Arão, teu irmão, será o teu profeta.’ Mas essas declarações jamais deveriam ser consideradas uma evidência da divinização de Moisés. A pessoa pode exercer uma função específica de Deus, sem com isso se tornar um deus em essência. Isso acontece em ambos os casos citados. Deus sempre continua soberano sobre os Seus mensageiros (Êxo. 4:15; Sal. 82:1), e não há outro Deus além dEle (Êxo. 20:3; Deut. 6:4; 2 Sam. 7:22; Osé. 13:4).

“Em João 10:34-38, Cristo argumenta que se ‘aqueles a quem foi dirigida a palavra de Deus’ podiam ser considerados como exercendo funções divinas na Terra, então muito mais Ele, que era funcional e essencialmente Deus, podia reivindicar para Si todas as prerrogativas divinas. As obras que Cristo fazia ‘em nome’ do Pai testificavam de Sua unidade essencial com Ele (João 10:25, 32, 37, 38). Essa unidade não é compartilhada por nenhuma criatura em todo o vasto Universo (Col. 2:9; Heb. 1:1-14).”

(Michelson Borges, jornalista e mestre em Teologia)

O perigo das generalizações

Como posso aceitar o cristianismo, já que ele foi responsável por tantas mortes, guerras e perseguições? – J.

Generalizações sempre foram um problema e sempre serão. Quando se estuda a história do Cristianismo se percebe que ele, com o tempo, acabou se tornando uma religião assustadora e opressiva, agora já com o nome de Catolicismo. Muitos abraçaram a fé cristã (católica) ou por medo do fogo do “inferno” (doutrina antibíblica) ou para salvar a própria pele e se livrar dos tribunais do Santo Ofício, que condenavam os que discordassem das doutrinas católicas. Por isso não podemos culpar certas pessoas que, como o escritor de ficção científica Arthur Clarke, dizem coisas do tipo: “Basta olhar tudo o que foi feito em seu [do cristianismo] nome nos últimos milênios para perceber que o cristianismo poderia ter sido a melhor das religiões, mas nunca foi praticado direito.” – Folha de S. Paulo, 22 de agosto de 1997.

Concordo com Clarke. Se o cristianismo, conforme legado por Jesus, tivesse sido “praticado direito”, mesmo os que discordam dele – do cristianismo – teriam uma visão bastante diferente a seu respeito.

O cristianismo deve ser julgado pelo que ensina, pela sua mensagem originalmente registrada nas páginas da Bíblia, e não pelas aplicações falhas que fizeram dele através da História. Assim como acho injusto, por exemplo, julgar o comunismo pela sua aplicação na ex-União Soviética.

(Michelson Borges, jornalista e mestre em Teologia)

Moisés relatou sua morte?

Se Moisés é considerado o autor do livro de Deuteronômio, como ele mesmo poderia ter narrado a sua morte? – F.

A inspiração não revelou quem foi o autor dos últimos versículos de Deuteronômio. Alguns comentaristas têm opinado que Moisés escreveu essa porção do livro antes de morrer; outros crêem que Josué, ou algum outro autor anônimo, o acrescentou posteriormente, como epílogo do Pentateuco. Qualquer das posições está em plena harmonia com a maneira como o Espirito Santo tem procedido em outras ocasiões. No entanto, certas expressões usadas nos versos 6-12 parecem ser melhor entendidas se se considerar que Josué foi o autor:

1. As palavras “ninguém conhece o lugar de sua [de Moisés] sepultura ate hoje” (vs. 6) refletem o interesse por parte dos que viveram depois da morte de Moisés em conhecer o lugar do sepulcro. É mais razoável pensar que esta declaração foi escrita por outra pessoa depois da morte de Moisés – uma pessoa inspirada, certamente – que crer que fora escrita por Moisés mesmo, antes desse acontecimento.

2. As palavras do verso 9, que dão testemunho da autoridade de Josué e de sua habilidade como dirigente, parecem ser mais um simples registro histórico da transição da liderança que uma predição a respeito desse fato. Na descrição feita por Moisés das vicissitudes futuras das doze tribos (cap. 33), ele fala em linguagem claramente profética (vs. 10, 12, 19, etc.); nesta passagem, a linguagem é de um relato histórico.

3. As palavras “e nunca mais se levantou profeta em Israel como Moisés” (vs. 10) parecem mais apropriadas como um elogio feito por Josué ou alguma outra pessoa que por Moisés mesmo.

Assim como aconteceu com o livro de Romanos, de autoria de Paulo, mas redigido por Tércio, o Espirito Santo pode ter guiado Josué na redação dos últimos versículos de Deuteronômio, assim como havia dirigido Moisés na escritura da porção anterior do livro, ou como mais tarde dirigiu Josué para escrever o livro que leva seu nome. (Extraído do Comentário Bíblico Adventista em espanhol, vol. 1, pág. 1091)

Michelson Borges (www.michelsonborges.blogspot.com).

A Bíblia é historicamente confiável?

Um agnóstico afirmou que a historiografia moderna não aceita a Bíblia como fonte histórica confiável, ou seja, que as Escrituras não recebem o endosso da História. Ele cita certos fatos sobrenaturais, narrados na Palavra de Deus, como a destruição de Sodoma e Gomorra, as pragas do Egito, a destruição de Jericó, e outros eventos miraculosos, como meras lendas. Eu pergunto: Qual a real posição da moderna historiografia em relação à Bíblia? Há indícios arqueológicos para os acontecimentos acima mencionados? – F.

A aceitação ou não da veracidade bíblica vai depender do paradigma que a pessoa adota. Se a pessoa está disposta a crer, verá evidências da confiabilidade bíblica; por outro lado, se a pessoa parte do pressuposto de que a Bíblia é uma coleção de fábulas, interpretará os fatos sob essa ótica. Na verdade, não há perigo na dúvida, desde que se esteja disposto a acreditar.

Muitos achados arqueológicos confirmaram e têm confirmado a parte histórica das Escrituras, e há muitos bons livros sobre esse assunto. Devido ao espaço, seria quase impossível mencionar aqui todas as descobertas arqueológicas que têm confirmado a inerrância bíblica. Por isso, limito-me a analisar alguns achados que confirmam relatos bíblicos.

O rei Davi – Escavações arqueológicas nas ruínas da antiga cidade israelita de Dã, na alta Galiléia, em 1993, revelaram um achado impressionante: uma pedra de basalto com inscrições. O arqueológo Avraham Biran, do Hebrew Union College de Jerusalém, logo identificou a pedra como parte de uma estela datada do século 9 a.C. Aparentemente, comemorava a vitória do rei de Damasco sobre dois inimigos: o rei de Israel e a Casa de Davi. A referência histórica a Davi caiu como uma bomba. O nome do rei de Israel nunca fora antes encontrado em nenhum documento antigo, além da Bíblia. Mas ali estava uma inscrição feita não por um escriba hebreu, mas por um inimigo dos israelitas, pouco mais de um século após a época em que Davi vivera. Essa descoberta não só confirmou a existência do rei como também sua dinastia.

Kenneth A. Kitchen, egiptólogo e orientalista aposentado pela Universidade de Liverpool, na Inglaterra, afirma que a arqueologia e a Bíblia “se harmonizam” quando descrevem o contexto histórico das narrativas dos patriarcas. Um exemplo: José, um dos filhos de Jacó, foi vendido como escravo por 20 moedas de prata (ver Gênesis 37:28). Kitchen assinala que esse era o exato preço de um escravo naquela região, naquela época, como ficou comprovado por documentos recuperados na região que é hoje a Síria e o Iraque.

Outros documentos revelam que o preço de escravos subiu de forma contínua nos séculos seguintes. Se a história de José tivesse sido inventada por um escriba judeu do 6º século, como sugerido por alguns céticos, por que o valor citado não corresponde ao preço da época?

O Êxodo – Embora haja os que contestem este que é um dos relatos mais importantes da Bíblia Hebraica – o Êxodo –, Nahum Sarna, professor de estudos bíblicos da Universidade de Brandeis, afirma que o relato do Êxodo “não pode, de modo algum, ser uma peça de ficção. Nenhuma nação inventaria para si mesma uma tradição assim tão inglória”, a menos que houvesse um núcleo verídico. E William G. Dever, arqueólogo da Universidade do Arizona, observa: “Escravos, servos e nômades costumam deixar poucos traços nos registros arqueológicos.” Daí não se ter encontrado vestígios arqueológicos do Êxodo.

Já o Dr. Paulo Bork, que fez cursos em várias universidades, como a Pacific School of Religion, da Califórnia, a Universidade Hebraica de Jerusalém e a Universidade de Londres, Inglaterra, e que participou de diversas pesquisas e expedições arqueológicas ao redor do mundo, afirma que “sempre existirão aqueles que não crêem na Bíblia e a criticam. Muitos deles não vão mudar sua forma de pensar, independentemente das evidências arqueológicas. Por outro lado, temos descoberto tantas evidências que iluminam a parte histórica da Bíblia que isso tem tornado muitos céticos em crentes”.

Sodoma e Gomorra – O Dr. Bork, mencionado acima, numa entrevista que me concedeu há algum tempo, disse: “Escavamos aquela região por vários anos e descobrimos coisas muito interessantes, que respaldam o relato bíblico. Existiam cinco cidades na parte leste do Mar Morto. Quando as escavamos, encontramos grande quantidade de cinzas. Em alguns lugares havia uma camada de um metro de cinzas. Não há outra maneira de explicar tamanha destruição e tanta cinza em um só local, a não ser pelo trágico relato de Gênesis.”

A Criação e o Dilúvio – Importantes documentos como o Enuma Elish, o Épico de Atrahasis e o Épico de Gilgamesh possuem fortes paralelos com a descrição bíblica da criação do mundo, a queda do ser humano e a vinda de um dilúvio sobre a Terra. Por causa dessas similaridades, alguns historiadores têm sugerido que o relato bíblico não passa de um plágio de documentos mais antigos. Entretanto, como destaca Rodrigo Pereira da Silva, doutor em Teologia do Novo Testamento pela Pontifícia Faculdade Católica de Teologia N. S. Assunção, em São Paulo, e especializado em Arqueologia pela Universidade Hebraica de Jerusalém, “as diferenças (que são muito mais significativas que as similaridades) fazem supor não uma cópia de material, mas antes uma referência múltipla aos mesmos eventos”. No antigo Oriente Próximo, a regra é que relatos e tradições podem surgir (por acréscimo ou embelezamento) na elaboração de lendas, mas não o contrário. No antigo Oriente, as lendas não eram simplificadas para se tornar pseudo-história, como tem sido sugerido para o Gênesis.

O Dr. Ariel Roth, autor do livro Origens – Relacionando a Ciência com a Bíblia, analisou cerca de 300 mitos da Criação encontrados entre tribos indígenas norte-americanas e concluiu que, a despeito de certa variação de costumes e outros fatores culturais, os mais variados grupos se encontravam em alguns temas principais. Por que essas similaridades de idéias míticas e imagens abundam em culturas tão distantes umas das outras? “A resposta”, segundo o Dr. Rodrigo, “não poderia ser outra senão a de que todas as tradições se encontram num mesmo evento real que ocorreu em algum ponto da história antiga.”

“Seus elementos coincidentes apontam o tempo em que a raça humana ocupou o mesmo espaço e praticou a mesma fé”, diz o estudioso Merryl Unger. “Suas semelhanças se devem a uma mesma herança, onde cada raça de homens manteve, de geração em geração, os históricos orais e escritos da história primeva da raça humana.” O Gênesis, portanto, se torna o elemento de convergência literária dessas semelhanças e esboça a forma original dessas tradições hoje espalhadas pelo mundo.
Outro detalhe importante a se destacar: é bastante estranho (do ponto de vista da interdependência histórica) que a Bíblia apenas ecoasse outros mitos quando a mola mestra de sua teologia é o monoteísmo, que se choca frontalmente com a linguagem e a cosmovisão politeísta encontrada nos demais textos.

Conclusão – William F. Albright escreveu no Retrospect and Prospect in New Testment Archaelogy, pág. 29: “Todas as escolas radicais na crítica ao Novo Testamento que existiram no passado ou existem hoje são pré-arqueológicas, e por terem sido construídas in der Luft (no ar) são bastante antiquadas hoje.” E Paul Frischauer, no livro Está Escrito – Documentos que Assinalaram Épocas, pág. 103, afirma que “o que está escrito na Bíblia aconteceu efetivamente ... a credibilidade histórica dos eventos mais importantes, como a emigração do patriarca Abraão de Ur, na Suméria, o Êxodo do Egito e o cativeiro babilônico, pôde ser comprovada por escavações arqueológicas e por achados de inscrições hebraicas”.

(Michelson Borges, jornalista e mestre em Teologia)

Autenticidade do livro de Isaías

Como posso provar que o livro de Isaías é autêntico? Há pessoas que dizem que as profecias sobre Jesus, em Isaías, foram escritas depois que os eventos aconteceram. – N.

Não se pode precisar data exata, mas sim época, pelo que está escrito no livro. Isaías era filho de Amoz (não deve ser confundido com Amós, outro profeta de Judá) (1:1). As Escrituras não dizem nada sobre o nascimento e a morte dele, embora a tradição judaica diga que ele foi serrado por ordem do iníquo rei Manassés. (Compare com Hebreus.11:37.) Seus escritos mostram que residia em Jerusalém com a esposa, uma profetisa, e com pelo menos dois filhos que tinham nomes proféticos (Isa.7:3; 8:1 e 3). Serviu durante o tempo de pelo menos quatro reis de Judá: Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias; começando por volta de 740 a.C. (quando Uzias morreu, ou possivelmente antes disso) e continuando pelo menos até depois de 680 a.C. (o 14° ano de Ezequias), ou não menos que 46 anos. Já havia também assentado por escrito, sem nenhuma dúvida, a sua profecia por volta desta última data (1:1; 6:1; 36:1). Outros profetas dos seus dias eram Miquéias, em Judá, e, ao norte, Oséias e Odede. Miq. 1:1; Osé. 1:1; 2 Crôn. 28:6-9.

Há prova abundante da autenticidade do livro de Isaías. Além de Moisés, não há outro profeta que seja citado com mais freqüência pelos escritores cristãos da Bíblia. Há também uma abundância de evidências na história e na arqueologia que provam que o livro é genuíno, tais como as narrativas históricas dos monarcas assírios, também o prisma hexagonal de Senaqueribe, no qual ele faz seu próprio relato sobre o cerco de Jerusalém (Isa., caps. 36, 37). O montão de ruínas daquilo que foi outrora Babilônia ainda constitui um testemunho do cumprimento de Isaías 13:17-22. Um testemunho vivo, sobre o qual eu já falei, foi fornecido pelos milhares de judeus que voltaram de Babilônia, sendo libertados pelo rei, cujo nome, Ciro, Isaías revelara por escrito cerca de 150 anos antes. É bem provável que este escrito profético tenha sido mostrado mais tarde a Ciro, pois, ao libertar o restante do povo judeu, ele declarou que foi Deus que lhe confiou essa missão. Isa. 44:28; 45:1; Esd 1:1-3.

Outro aspecto notável do livro de Isaías são as profecias messiânicas. Isaías é chamado “o profeta evangelista”, em razão de serem tantas as predições sobre os eventos da vida de Jesus que se cumpriram. O capítulo 53, que por muito tempo fora um “capítulo enigmático”, não só para o eunuco etíope, mencionado em Atos 8, mas também para o povo judeu em geral, prediz tão vividamente o modo como Jesus seria tratado que parece narrativa de uma testemunha ocular. As Escrituras Gregas Cristãs relatam os cumprimentos proféticos deste notável capítulo de Isaías, conforme mostram as seguintes comparações: Isa 53:1; João 12:37,38; Isa 53:2; João 19:5-7; Isa 53:3; Marcos 9:12; Isa 53:4; Mateus 8:16, 17; Isa 53: v. 5;1 Pedro 2:24; Isa 53:6; 1Pedro 2:25; Isa 53:7; Atos 8:32, 35; Isa 53:8; Atos 8:33; Isa 53:9; Mateus 27:57-60; Isa 53:10; Hebreus 7:27; Isa 53:11; Romanos 5:18; Isa 53:12; Lucas 22:37. Quem senão Deus poderia ser a fonte dessas predições tão exatas?

E mais: se foi encontrado um rolo de Isaías um século mais antigo que a época em que Jesus viveu (Manuscritos do Mar Morto), como as profecias messiânicas de Isaías poderiam ter sido escritas depois que os eventos ocorreram?

(Michelson Borges, jornalista e mestre em Teologia)

Destino determinado ou livre-arbítrio?

Como os cristãos podem falar em livre-arbítrio se é Deus quem determina o futuro? Deus já sabe tudo o que vai acontecer, por isso que papel temos nós seres humanos? Tudo já não estaria determinado? Deus sabe que vai vencer o mal; sabe que Jesus irá voltar, etc., etc. – O.

Aqui há um erro conceitual. Algo determinado é diferente de algo previsto. Deus prevê, mas nem sempre determina. Tento entender essa questão da seguinte maneira: digamos que eu tenha dez possibilidades de escolha para um caminho que deva tomar. Deus sabe o que ocorrerá comigo caso eu escolha qualquer um dos dez. E como Ele já sabe de antemão o caminho que eu vou seguir, pode prever (e antevê efetivamente) as conseqüências. Mas isso não significa que Ele esteja escolhendo por mim. As profecias prevêem o futuro, não o determinam. Se fosse assim, por que Deus perderia tempo advertindo pessoas que Ele já sabe irão se perder? Isso demonstra que, em última instância, nós é que decidimos nosso próprio destino.

Sobre a questão da previsão ou determinação, aquilo que diz respeito às atitudes de Deus, por certo já está determinado. É lógico que Deus sabe que irá vencer o mal. É lógico que Deus determinou que Jesus irá voltar e terminar com este sistema de coisas. Mas a decisão humana de fazer parte desse novo mundo, ou não, só pertence aos humanos. No âmbito macro do conflito, digamos assim, tudo está determinado. Mas no micro, ou seja, no que se refere às nossas decisões, temos páginas em branco diante de nós. A Bíblia tem inúmeras passagens que apresentam Deus propondo caminhos e escolhas aos seres humanos.

(Michelson Borges, jornalista e mestre em Teologia)

Deus contraditório?

O Deus do Antigo e o do Novo Testamento me parecem contraditórios entre si. O primeiro é vingativo e assassino, e o outro é amoroso e bom. Que sentido há em deixar que o pecado cresça, para depois sacrificar alguém para livrar as pessoas do pecado, e ainda assim o pecado continuar crescendo? Outra coisa é, se quem vai julgar sou eu e quero perdoar, para que toda a encenação da morte de alguém que é imortal? Considerando que Jesus é Deus e tem como atributo ser todo-poderoso, o que ocorreu foi um suicídio de “brincadeirinha”; Ele Se deixou matar com todo um teatrinho. Mas como Se deixou matar se outro atributo de Deus é a imortalidade? A Bíblia diz que Deus é bom e todo-poderoso, mas Ele nada fez para impedir a desgraça de Jó. Isso é ser bom? – D.

Se você analisar a forma como um pai lida com um filho de três anos de idade e, posteriormente, lida com esse mesmo filho na adolescência, poderá dizer que o pai é contraditório. Alguns até admitem que se dê algumas palmadas corretivas numa criança, ou que se lhe aplique um castigo. Mas fazer isso com um jovem é ridículo. As mudanças de atitude de Deus apenas refletem a maneira como Ele teve que lidar com os diferentes tipos de povos, levando em conta a maturidade espiritual deles. Note que as atitudes mais drásticas de Deus aconteceram com o povo hebreu logo que saiu do Egito. Era um povo escravo, iletrado, acostumado à violência. Deus queria elevá-los à categoria de “povo escolhido” para alcançar as demais nações com Sua mensagem. Como falar-lhes inicialmente com a linguagem do amor, do carinho, na “maciota”, se eles não compreenderiam? No momento certo, quando as pessoas já tinham condições de compreender, Deus Se manifestou de forma mais aberta, através de Jesus, “a expressa imagem do Pai”, como diz o Novo Testamento.

Se se aceita a noção bíblica do Grande Conflito entre o bem e o mal, tudo fica mais fácil de entender. Deus tem em vista o bem eterno do Universo. Seu governo foi desafiado pelo mais poderoso e respeitado dos anjos. Se o Criador não desse tempo para que os frutos do pecado e da rebelião se manifestassem, muitos seres ficariam em dúvida, talvez considerando que as acusações de Lúcifer pudessem ter razão. A Bíblia diz que “somos espetáculo ao Universo, tanto a homens quanto a anjos”. De que espetáculo você acha que ela está falando aqui? Justamente do espetáculo do pecado, aspecto singular deste planeta. A Bíblia também diz que o sacrifício de Cristo já estava decidido mesmo antes da criação do mundo. Ou seja, providências já haviam sido tomadas caso o homem escolhesse pecar. Não foi uma “encenação” arranjada. Foi uma troca chamada “redenção”. Deus assumiu a culpa pelo pecado humano (por isso a Bíblia diz que Jesus “Se fez pecado por nós”) e nos deu o direito à vida eterna, mesmo sendo nós, por herança adâmica, pecadores. Mas ainda morremos, você pode dizer. Sim, mas temos a garantia da vida eterna quando Jesus voltar. Cristo morreu, como diz a Bíblia, “na plenitude dos tempos”, no momento certo em que as pessoas poderiam compreender Sua obra e essa notícia poderia ser espalhada pelo mundo, para que as pessoas pudessem crer e aceitar a oferta da salvação.

Jesus, como Deus, é imortal (tanto que ressuscitou). Mas como homem, assumiu a natureza humana, que podia morrer e efetivamente morreu. Note que, não tendo pecado, Jesus não merecia morrer. Por isso é o verdadeiro substituto. Essa “amálgama” entre a natureza divina e a natureza humana, em Cristo, é chamada de o “mistério da piedade”.

Já com respeito à história de Jó, novamente tudo fica compreensível quando se leva em conta o Grande Conflito. Satanás acusou a Deus, dizendo que Jó só O reverenciava e amava porque era abençoado. Logo, era praticamente impossível servir a Deus, dizia Satanás, num mundo de tantas dificuldades. O interessante é que Deus conhecia o coração de Jó e sabia que podia contar com ele para mostrar ao Universo que é possível, sim, ser obediente e servir a Deus pelo simples fato de saber que isso é o certo a ser feito e o melhor para os seres criados. Tanto que, num certo momento, Jó chega a dizer: “Ainda que Ele [Deus] me mate, eu vou confiar nEle.” Que fé!

Essa história (que segundo pesquisadores foi escrita por Moisés) é muito interessante. É como se Deus estivesse pedindo “ajuda” a um ser humano, a fim de demonstrar que Seus filhos O amam independentemente do que Ele faça por eles. Jó sabia que não havia feito nada de errado, como seus “amigos” tentaram fazê-lo admitir, e esperou pacientemente pela resposta de Deus. Imagino, na ressurreição, quando esse homem compreender que deu uma lição em Satanás e para todo o Universo, o quão privilegiado se sentirá.

“Quando Cristo veio ao nosso mundo, Satanás estava em campo, e disputou cada palmo de avanço, em Sua vereda desde a manjedoura até ao Calvário. Satanás acusara a Deus de exigir abnegação dos anjos, quando nada sabia Ele mesmo do que isso significava, e quando Ele mesmo nenhum sacrifício fazia em favor de outros. Esta foi a acusação que Satanás fez contra Deus no Céu; e depois que o maligno foi expulso do Céu, continuamente acusou o Senhor de exigir serviço que Ele mesmo não faria. Cristo veio ao mundo para desfazer essas falsas acusações e revelar o Pai.” – Ellen G. White, Mensagens Escolhidas, vol. 1, págs. 406 e 407.

(Michelson Borges, jornalista e mestre em Teologia)

segunda-feira, dezembro 12, 2005

Dilúvio de Gênesis

Como aceitar a idéia de que tenha havido água suficiente para cobrir os mais de 8 km do Monte Everest, durante o Dilúvio? – S.

Prezado S., conforme destaco em meu livro A História da Vida, o Dilúvio de Gênesis foi um grande cataclismo hidráulico, com correntes de água derramando-se abundantemente dos céus e brotando continuamente da crosta terrestre, por todo o mundo, durante semanas a fio, até que todo o globo terrestre fosse totalmente submerso, tudo isso acompanhado por transbordamentos de magma do manto terrestre, por gigantescos movimentos telúricos, deslizamentos de placas da crosta, maremotos e explosões. Tomando estes acontecimentos como modelo, podemos imaginar os resultados correspondentes se ocorressem hoje. Mais cedo ou mais tarde todos os animais terrestres pereceriam. Muitos animais marinhos pereceriam, mas não todos. Os seres humanos nadariam, correriam, subiriam em elevações, e tentariam escapar às inundações mas, a não ser que alguns poucos conseguissem sobreviver ao cataclismo em navios incomumente fortes e à prova d’água, por fim morreriam afogados (e corpos à deriva se decompõem e não fossilizam, daí a escassez de fósseis humanos antediluvianos). O solo erodiria e as árvores e plantas seriam desarraigadas e carregadas na direção do mar em grandes amontoados de torrentes diluvianas. Por fim, as próprias montanhas e colinas se desintegrariam e escorregariam água abaixo em grandes deslizamentos de terra e correntes túrbidas. Lajedos de rochas se rachariam e se chocariam violentamente e pouco a pouco seriam reduzidas a seixos, cascalho e areia. Vastos mares de barro e rocha correriam rio abaixo, prendendo muitos animais (os atuais fósseis) e transportando como em jangadas grandes massas de vegetais com eles.

No fundo do oceano, sedimentos agitados, águas e magma subterrâneos sepultariam hordas imensas de invertebrados. As águas passariam por rápidas mudanças de temperatura e salinidade, grandes massas de pasta fluida se formariam e grandes quantidades de elementos químicos seriam dissolvidos e dispersos pelas correntes marítimas. Posteriormente, os sedimentos sólidos e as águas se misturariam com as dos oceanos. Por fim os sedimentos se precipitariam quando as águas se acalmassem, elementos químicos dissolvidos se precipitariam em tempos e lugares em que a salinidade e a temperatura permitissem, e seriam formadas grandes camadas de sedimento, logo amalgamadas em rochas por todo o mundo.

É claro que isso é apenas um esboço simplificado da grande variedade de fenômenos que acompanharam a catástrofe que foi o Dilúvio. A própria complexidade do modelo faz com que ele se torne extremamente versátil em sua capacidade de explicar ampla diversidade de dados.

No capítulo 7 do livro Patriarcas e Profetas, a escritora norte-americana Ellen G. White descreve vividamente a violência do Dilúvio, à medida em que tragava edificações, árvores, rochas e terra, arrastando-os a todas as direções. A autora chega ao ponto de afirmar que “o próprio Satanás... temeu por sua existência” (pág. 99).

Quanto à possibilidade de ocorrerem transformações topográficas, a História apresenta inúmeros exemplos. Vou citar apenas dois. Em 27 de agosto de 1883, o vulcão da ilha de Cracatoa explodiu e fez afundar a maior parte da ilha, que tinha anteriormente uma área de 40Km2. Em 1950, na Índia, um terremoto transformou a configuração de cordilheiras inteiras na região do Himalaia. Em questão de horas e até minutos, muita coisa pode ser transformada por catástrofes naturais locais; imagine do que seria capaz um cataclismo mundial como o Dilúvio de Gênesis!

Agora, de onde veio e para onde foi tanta água? Primeiramente é bom que fique claro que as características do mundo antediluviano eram bem diferentes das do mundo atual. O consenso entre muitos estudiosos e cientistas é de que a Terra, naqueles dias, era coberta por um dossel, uma camada de vapor d’água, criando um efeito estufa em larga escala no planeta (efeito greenhouse). Esse efeito, devido a uma permanente capa de nuvens na atmosfera interior (troposfera), teria produzido um meio ambiente mais favorável à vida. A Bíblia faz referência a esse dossel em Gênesis 1, verso 6: “E disse Deus: Haja firmamento [atmosfera] no meio das águas e separação entre água e águas.” Então Deus fez o firmamento e separação entre águas debaixo do firmamento (oceanos, lagos, rios) e águas sobre o firmamento (dossel). Disto, pode-se deduzir que as condições climáticas antediluvianas eram bem diferentes das atuais em pelo menos três aspectos:

 Não havia chuva anterior ao Dilúvio (o que gerou a descrença dos conterrâneos de Noé quanto à predição da catástrofe).
 O planeta era regado pelo orvalho, subordinado à umidade, saturação e condensação. Há indícios de que não sopravam ventos na mesma proporção de hoje.
 O clima do planeta provavelmente era o mesmo em toda parte (sabe-se, por exemplo, que áreas desérticas como o Saara, o grande deserto australiano, o Atacama chileno e as regiões ressequidas do oeste americano foram outrora pantanosas e úmidas, com água em abundância. Em outras regiões, hoje áridas, há vestígios de floresta). Mas para que tais condições pudessem existir, era necessária, como disse, uma camada atmosférica de vapor para aumentar a pressão e para manter a temperatura uniforme no planeta através de um efeito estufa global e moderado.

A precipitação de água no Dilúvio pode haver-se dado devido a erupções em grande escala na Terra, o que lançaria uma enorme quantidade de pó na atmosfera fazendo condensar o vapor do dossel (talvez um evento como esse possa ser associado ao rompimento de “todas as fontes do grande abismo”, antes da precipitação da água das “janelas do céu” – ver Gênesis 7:11). Outra possibilidade seria a entrada de pó cósmico na atmosfera terrestre ou mesmo rochas de maior tamanho que poderiam, além de desencadear o processo de condensação do vapor do dossel com sua passagem, romper a crosta terrestre em vários pontos, ao se chocarem contra ela a altíssimas velocidades, liberando, assim, as águas do “grande abismo”, sob pressão abaixo da superfície.

É claro que Deus pode transformar este planeta quando quiser e com métodos que ignoramos. Pode fazê-lo em um instante, uma semana, ou em outro tempo qualquer. No entanto, é interessante notar que Deus, via de regra, utiliza-Se de Suas leis, algumas das quais já conhecemos; outras, não.

Outro fato interessante é que os oceanos contêm água suficiente para cobrir a Terra. Se a superfície da Terra fosse plana, sem montanhas ou bacias oceânicas, ela seria coberta por uma camada de água com 3 km de profundidade (H. W. Dubach e R. W. Taber, Questions About the Oceans. Publication G13. Washington DC: US Naval Oceanographic Office, pág. 35, 1968). Portanto, há água suficiente para inundar a Terra. Antes do Dilúvio, certa quantidade de água estava provavelmente nos mares (não tão vastos como os de hoje), na atmosfera, como já dissemos, e uma quantidade desconhecida de água estaria no subterrâneo do planeta.

Daí surge uma dúvida: 3 km de água são insuficientes para cobrir o Everest, que tem mais de 8 km de altura. Sim, mas é bom que se saiba que durante o Dilúvio, a área onde agora está o Monte Everest era uma bacia na qual sedimentos estavam se acumulando. Isso é evidenciado pela presença de fósseis marinhos no Monte (N. E. Odell, "The Highest Fossils in the World". Geological Magazine 104(1):73 e 74, 1967).

Após o soterramento dos fósseis, atividades catastróficas elevaram os sedimentos a uma altura bem acima de sua posição anterior, formando as montanhas do Himalaia. A maioria das montanhas atuais pode ter se formado de maneira semelhante, durante o Dilúvio ou logo após. Isso sugere que o mundo antediluviano não possuía topografia tão acidentada (com montanhas tão altas) como a que vemos hoje. Após o Dilúvio, essa Terra relativamente plana deu lugar a um planeta com grandes cadeias de montanhas e abismos cuja profundidade chega a vários quilômetros, e que acomodaram as águas diluviais.

Para mais informações sobre este e outros assuntos relacionados à controvérsia criacionismo x evolucionismo, sugiro a leitura dos livros Origens (Casa Publicadora Brasileira – www.cpb.com.br), Em Busca das Origens e Evolução, um Livro-Texto Crítico (Sociedade Criacionista Brasileira – www.scb.org.br).

(Michelson Borges, jornalista e mestre em Teologia)

Deus de todos os povos

Por que Deus Se revelou somente ao povo hebreu? – L.

Os hebreus não eram o único povo a ter contato com Deus. A própria Bíblia mostra isso. Exemplos:

1. Quem reconheceu que o Messias havia nascido em Belém, além dos pastores? Magos do Oriente, considerados pagãos pelos judeus, mas que conheciam as Escrituras hebraicas e se mostraram sinceros. Foram recompensados; encontraram Jesus. Lição: não importa de que povo sejamos ou quem somos, se queremos realmente, podemos encontrar Jesus. Faça o teste. Abra o coração (e a mente), busque a Jesus e você terá um surpresa.

2. Um alto funcionário da Etiópia foi a Jerusalém em busca de Deus. Encontrou apenas o preconceito. Mas Deus enviou Filipe até ele a fim de explicar-lhe as Escrituras.

3. A capital assíria de Nínive recebeu a palavra de Deus, se converteu e foi salva (ver o livro de Jonas, na Bíblia).

Os exemplos poderiam ser multiplicados, mas basta dizer que o plano de Deus para Israel era de levar Sua mensagem de salvação por meio deles. Deus escolheu Seu servo Abraão, na pagã Ur dos caldeus, e prometeu que faria dele uma grande nação e que a usaria com o propósito que mencionei acima. Deus cumpriu Sua promessa; Israel, infelizmente, não. Assim, o povo hebreu perdeu a prerrogativa de povo escolhido, e Deus passou a utilizar a igreja para disseminar Sua mensagem. Deus quer Se revelar a todos aqueles que Lhe dão uma oportunidade.

(Michelson Borges, jornalista e mestre em Teologia)

Dias da Criação: horas literais

A Bíblia de Jerusalém diz que podemos pensar os dias do Gênese não como “dias humanos”, mas como “dias para Deus”, e eles podem ter horas ou anos ou bilhões de anos do homem. O que me diz disso? – A.

Na verdade, a Bíblia de Jerusalém não “diz” isso. Quem “diz” é a nota de rodapé incluída nessa versão (que por sinal é uma boa versão). A nota é que está interpretando o texto bíblico que nada diz sobre “dias de homens” ou “dias de Deus”. O assunto não pode ser assim tão simplificado e devemos levar em conta o hebraico.

Segundo Gerhard F. Hasel, ex-professor de Teologia Bíblica e Antigo Testamento na Andrews University (EUA), a semântica (estudo lingüístico dos significados de palavras, frases, cláusulas, etc.) chama atenção para a questão crucial do significado exato da palavra hebraica yom. Poderia a designação “dia” (yon) em Gênesis 1 ter um significado figurativo? Ou deve ela ser entendida, com base nas normas da semântica, como um dia literal de 24 horas? Algumas pessoas, numa tentativa de evitar maiores problemas com o evolucionismo, aplicam a teoria dos dias-eras ao relato de Gênesis 1 (como faz a nota da BJ). Para elas, os seis dias da Criação são, na verdade, longos períodos de tempo. Será que isso é possível? Antes de mais nada, é preciso deixar claro que o termo yon em Gênesis 1 não se liga a qualquer preposição; não é usado em uma relação construtiva; e não tem nenhum indicador sintático que seria de esperar para um uso extensivo não literal.

Nas Escrituras, a palavra yon invariavelmente significa um período literal de 24 horas, quando precedida por um numeral, o que ocorre 150 vezes no Antigo Testamento. Obviamente, no relato da Criação existe sempre um numeral precedendo aquela palavra – primeiro, segundo, terceiro... sétimo dia; e essa regra para a tradução de yon como um dia literal aplica-se neste caso. O que parece ser significativo, também, é a ênfase dada à seqüência dos numerais 1 a 7, sem qualquer hiato ou interrupção temporal. Esse esquema de sete dias (seis dias de trabalho seguidos por um sétimo dia de repouso) interliga os dias da Criação como dias normais em uma seqüência consecutiva e ininterrupta. O relato da Criação em Gênesis 1 não somente liga cada dia a um numeral seqüencial, como também estabelece as fronteiras do tempo mediante a expressão “tarde e manhã” (versos 5, 8, 13, 19, 31). A frase rítmica “e houve tarde e manhã” provê uma definição para o “dia” da Criação; e se o “dia” da Criação constitui-se de tarde e manhã, é, portanto, literal. O termo hebraico para “tarde” – ‘ereb – abrange toda a parte escura do dia (ver dia/noite em Gên. 1:14). O termo correspondente, “manhã” (em hebraico bqer) representa a parte clara do dia. “Tarde e manhã” é, portanto, uma expressão temporal que define cada dia da Criação como literal. Não pode significar nada mais.

Outra espécie de evidência interna no Antigo Testamento para o significado dos dias resulta de duas passagens sobre o sábado no Pentateuco, que se referem aos dias da Criação. Elas informam ao leitor quanto a como os dias da criação foram compreendidos por Deus. A primeira passagem faz parte do quarto mandamento do Decálogo, e está registrada em Êxodo 20:9-11: “Seis dias trabalharás ... mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus ... porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra ... e ao sétimo dia descansou; por isso o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou.” Estas palavras foram proferidas por Deus (verso 1). A ligação com a Criação transparece no vocabulário (“sétimo dia”, “céus e terra”, “descansou”, “abençoou”, “santificou”) e no esquema “seis mais um”.

Evidentemente as palavras usadas nos Dez Mandamentos deixam claro que o “dia” da Criação é literal, composto por 24 horas, e demonstram que o ciclo semanal é uma ordenança temporal da Criação. Aliás, como explicar a origem do ciclo semanal, se não pela criação em seis dias literais seguidos do repouso do sétimo dia? A semana não está vinculada a nenhum movimento ou fenômeno astronômico, como os dias (rotação da Terra), os anos (translação) e os meses. A palavra divina, que promulga a santidade do sábado, toma os seis dias da Criação como seqüenciais, cronológicos e literais. Dizer o contrário, portanto, é ir contra o contexto literário de Gênesis e contra o Criador.

Por fim, uma última consideração: a criação da vegetação ocorreu no terceiro dia (ver Gên. 1:11 e 12). Grande parte dessa vegetação parece ter necessitado de insetos para a polinização. Mas os insetos só foram criados no quinto dia (verso 20). Se a sobrevivência desses tipos de plantas, que necessitam de insetos e outros animais para a polinização, dependesse deles para a reprodução, então haveria um sério problema se o “dia” da Criação significasse “era”. Ainda mais: a teoria dos dias-eras exigiria um longo período de iluminação e outro de escuridão para cada uma das supostas épocas. Isto, é claro, seria fatal tanto para as plantas quanto para os animais. Os dias da Criação devem ser entendidos como literais e não como representando longos períodos de tempo. Argumentar em contrário, é forçar o texto bíblico a dizer o que não diz.

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