terça-feira, outubro 09, 2012

As 28 doutrinas fundamentais no livro de Daniel

É possível demonstrar somente no livro de Daniel as 28 doutrinas bíblicas fundamentais da Igreja Adventista do Sétimo Dia?

1. AS ESCRITURAS SAGRADAS. Daniel exaltava a Palavra de Deus todas as vezes que Deus lhe revelava Sua vontade. É possível identificar a exaltação da Palavra de Deus em cada capítulo de Daniel (Dn 1:8, 9).

2. A TRINDADE. Em Daniel, é possível visualizar a atuação da Trindade: Deus no trono do Universo, tendo sob Seu controle todos os reinos e impérios, estabelecendo e removendo reis (Dn 2:21). Deus o Pai é o provedor e fonte da redenção; Jesus, o Filho do homem, está no trono da graça intercedendo por nós diante do Ancião de Dias. Deus o Filho é o realizador da nossa salvação na cruz do calvário (Dn 7:13; 9:26). Jesus efetuou nossa redenção; o Espírito Santo está no trono do coração humano. E deu a Daniel o Seu poder (Dn 4:7, 8). O Espírito Santo aplica a salvação à nossa vida (Dn 4:37).

3. DEUS PAI. Daniel exalta a pessoa de Deus o Pai (Dn 2:23; 5:23; 9:4; 7:9). Por meio do testemunho de Daniel e de seus companheiros, tanto Nabucodonosor quanto Dario também exaltaram a Deus (Dn 3:28-30; 4:34-37; 6:25-28). O nome de Deus é bendito para todo o sempre (Dn 2:20). O povo de Deus se chama pelo Seu nome (Dn 9:19).

4. DEUS FILHO. Daniel exalta Jesus na pessoa de Miguel (Dn 10:13, 22; 12:1). Na literatura Bíblica, Miguel é introduzido em Daniel 10:13, 21 e 12:1 e reaparece em Judas 9 e Apocalipse 12:7. Em Daniel 7, Jesus é o Filho do homem.

5. DEUS ESPÍRITO SANTO. Daniel tinha o “Espírito do Deus Santo”. A versão de Teodócio diz: “Que tem em si o Santo Espírito de Deus.” Quem reconhece esse fato não é Daniel, mas Nabucodonosor (Dn 4:8, 9). Nada é difícil para quem tem o Espírito Santo. Em Daniel 9, Daniel ora por si e pelo povo. Reconhece o pecado do seu povo e é inclusivo ao pedir perdão. Quem nos convence do pecado, da justiça e do juízo? (Jo 16:8).

6. A CRIAÇÃO. Como Criador, Deus muda os tempos e as horas, revela o profundo e o escondido, conhece o que está nas trevas, e com Ele mora a luz. Deus está nos céus (Dn 2:20-22, 28).

7. A NATUREZA DO HOMEM. Daniel não fala sobre os detalhes da natureza do homem, mas enaltece o fato de que Deus é Todo-Poderoso e o homem é especial para Deus, porém, limitado e dependente dEle. Para Daniel, é Deus quem dá conhecimento, inteligência, cultura e sabedoria. O homem não é um fim em si mesmo (Dn 1:17). É de Deus toda a sabedoria e força (Dn 2:20). É Deus quem dá o reino, o poder, a força e a majestade a Nabucodonosor (Dn 2:37). Para Nabucodonosor, enquanto ele era rei de reis, o Deus de Daniel era Deus dos deuses e Senhor dos reis. Deus envia Seus anjos para nos erguer quando caímos (Dn 8:17, 18; 10:8-10). Em Daniel, fica claro que Deus ama o homem (Dn 10:11, 19). Sem auxílio de mãos, Deus estabelecerá o Reino de Seus filhos. Deus não está dizendo que não precisa dos homens, mas que o mais importante é confiar em Seu poder (Dn 1:45).

8. O GRANDE CONFLITO. No decorrer da história e a da profecia, há um grande conflito entre o bem e o mal. É Possível identificar o grande conflito em cada capítulo do livro de Daniel:

Existe uma dieta pagã e uma dieta divina (Daniel 1).
Existem reinos e impérios deste mundo e o reino eterno de Deus (Daniel 2).
Existem os deuses e o Rei de reis e o Senhor dos Reis (Daniel 2:37, 47).
A verdadeira adoração e a falsa adoração. A música divina e a música humana (Daniel 3).
A grandeza do homem e a grandeza de Deus (Daniel 4).
A resposta dos astrólogos e a resposta de Deus (Daniel 1 e 5).
O Leão da tribo de Judá e o leão que deseja nos tragar (Daniel 6).
O chifre pequeno e o Altíssimo (Daniel 7).
Um santuário pisado pelos homens e purificado por Deus (Daniel 8).
O pecado do homem e o perdão de Deus. O homem se degenera e Deus restaura (Daniel 9).
Uma guerra entre o príncipe do reino da Pérsia e o príncipe Miguel. Uma luta entre o anjo Gabriel e Lúcifer (Daniel 10).
Uma batalha final (Daniel 11).
Os purificados, embranquecidos e provados e os ímpios procedendo impiamente diante de suas respectivas heranças (Daniel 12:10, 13).

9. VIDA, MORTE E RESSURREIÇÃO DE CRISTO. Quase no fim dos 490 anos tirados dos 2.300 anos proféticos, mais precisamente no ano 31 de nossa era, Jesus morre na cruz do calvário para nos salvar e fazer cessar todos os sacrifícios cerimoniais. Daniel nos diz que Jesus é Filho do homem, à destra de Deus, intercedendo por cada um de Seus filhos (Dn 7:13). Fica subentendido no texto Bíblico que Jesus ressuscitou, pois, em outra cena, posterior à morte dEle, Ele é visto no Céu, numa cena de julgamento. Em Daniel 12, Miguel é o instrumento divino para proteger os Filhos de Deus e ressuscitá-los (Dn 12:2). Jesus só pode ressuscitar porque Ele ressuscitou primeiro.

10. A EXPERIÊNCIA DA SALVAÇÃO. O livro de Daniel fala de salvos e perdidos: os sábios deste mundo e os sábios segundo Deus (Dn 1:20). O rei Belsazar se perdeu, mas Nabucodonosor se salvou (Dn 5:30; 4:37). Na mesma cova dos leões, Daniel foi preservado e seus acusadores destruídos (Dn 6:22, 24). O chifre pequeno é queimado pelo fogo e os santos do altíssimo recebem o reino (Dn 7:11, 18). A conversão de Nabucodonosor é um exemplo do que a salvação faz na vida das pessoas. Nasce o reconhecimento de que todas as obras de Deus são verdade e os Seus caminhos são justos (Dn 4:33-37). Muitos viverão eternamente e muitos serão condenados à vergonha e ao desprezo eterno (Dn 12:2). Os salvos são sábios e resplandecem como o fulgor do firmamento (Dn 12:3). Os salvos ensinam a justiça; essa é a missão deles (Dn 12:3). Deus concede graça a Seus filhos, por Seu amor e desejo de salvar (Dn 9:24; 490 anos de graça).

11. A IGREJA. Daniel nos mostra que Deus tem um povo. Esse povo o representa aqui na Terra. Daniel, Sadraque, Mesaque e Abede-nego fazem parte do povo de Deus. O livro de Daniel nos fala repetidamente sobre o estabelecimento do Reino de Deus. Esse reino é formado por sua Igreja. A Igreja de Deus no livro de Daniel é chamada de “povo santo do Altíssimo” (Dn 7:18, 27). A Igreja de Deus se aproxima, a cada dia, do Reino a partir do momento que prega as verdades restauradas após 1844 (Dn 8:14).

12. O REMANESCENTE E SUA MISSÃO. Daniel nos ensina que existiria um povo remanescente que jamais abriria mão da verdade e lutaria por ela. O próprio Daniel é o melhor exemplo. Ele cria inabalavelmente que Deus é o Senhor de todas as respostas. Ele revela o profundo e o escondido. Pessoas como Daniel são cada vez mais raras. Existe apenas “um resto”. Sadraque, Mesaque e Abede-nego também criam que Deus liberta Seus filhos e anda com eles em meio ao fogo (Dn 3:17). O remanescente tem uma missão: ensinar a justiça (Dn 12:3).

13. UNIDADE NO CORPO DE CRISTO. Não podemos ter dúvidas da unidade desses jovens hebreus, representando com brilho a unidade no corpo de Cristo. A unidade é o mais poderoso testemunho que a Igreja pode oferecer. A unidade ajuda o mundo a discernir os genuínos cristãos. Eles não eram iguais, mas eram unidos no propósito de glorificar a Deus e exaltar Seu nome (Dn 1:12; 2:16-18; 3:16-18). Há força e poder na unidade. A fonte da unidade é Jesus.

14. O BATISMO. Daniel não nos fala diretamente sobre o batismo. Mas nos fala dos resultados de uma vida entregue a Jesus. Partindo da visão das 2.300 tardes e manhãs e chegando ao seu cumprimento profético, já em nossos dias, podemos ver que o batismo por imersão é restaurado como verdade evangélica (Dn 8:14). A unção de Jesus está profundamente relacionada com o batismo dEle. Daniel diz que o Ungido seria “cortado”. Jesus foi ungido por ocasião do Seu batismo (Lc 3:21, 22; 4:18, 19; At 10:37, 38).

15. A CEIA DO SENHOR. Daniel não menciona a Ceia do Senhor como a praticamos, mas é como se mencionasse. Daniel não fala do lava-pés, mas demonstra a importância de um coração humilde e submisso, que abandona o orgulho (Dn 5:22; 4:32, 37). Todos os feitos maravilhosos são atribuídos a Deus de forma humilde e graciosa (Dn 2:27, 28). Daniel não fala de Jesus como o pão da vida, mas fala de Jesus o erguendo quando fraco, sem energia, sem forças (Dn 10:5-11). Daniel não fala de Jesus como o vinho, mas fala do sangue de Jesus derramado na cruz do calvário por cada um de nós (Dn 7:27). Ele fala do lugar em que estaremos para sempre com Aquele que disse: “Desta hora em diante, não beberei deste fruto da vide, até aquele dia em que o beba de novo convosco no reino de Meu Pai” (Mt 26:29; veja Dn 2:44; 6:26; 7:27; 12:1-3,10, 13).

16. DONS E MINISTÉRIOS ESPIRITUAIS. Os dons espirituais são habilitações especiais dadas por Deus a Seus filhos, preparando-os para serem úteis à Igreja no cumprimento da divina missão que ela recebeu. Daniel possuía muitos dons: o dom do conhecimento (Dn 1:17); o dom da sabedoria (Dn 1;17); o dom profético (todos os sonhos e visões que Daniel teve demonstram isso); o dom do discernimento de espíritos (Dn 2:27); o dom da liderança (Dn 1:21; 2:48; 4:9; 5:29; 6:28); o dom da misericórdia (Dn 9:3-23); o dom missionário (Dn 1:1-4); o dom da oração (Dn 2:16-19; 6:10; 9); o dom do serviço (Daniel estava em Babilônia a serviço de Deus; Dn 6:20). Os dons espirituais se manifestam no serviço de amor.

17. O DOM PROFÉTICO. Daniel era um profeta de Deus com evidências substanciais: sua mensagem se harmonizava com a Palavra de Deus (compare Daniel e Apocalipse); as predições se cumpriram com precisão matemática (Dn 4 e 5; 7:25; 8:14); Daniel reconhecia que Jesus viria em carne (Dn 9:27); a vida dele produzia frutos excelentes – aliados e inimigos reconheciam isso (Dn 2:46-49; 4:8, 9; 5:10-12; 6:3-5; 6:26; 9:23; 10:11; 12:13).

18. A LEI DE DEUS. Daniel nos orienta profeticamente e diz que um poder surgiria de Roma e mudaria os tempos e a lei (Dn 7:25); Daniel reconhece que o cativeiro Babilônico se deu devido à desobediência à lei de Deus (Dn 9:4, 5, 7, 10, 11, 13); Daniel ensina que Jesus morreria na cruz do calvário, provando que a lei de Deus é perfeita e restaura a alma (Dn 9:27). “Foi para expiar a transgressão da lei pelo homem que Cristo depôs a Sua vida. Se a lei pudesse ser mudada, Jesus não precisaria ter morrido. Por Sua vida, honrou a lei de Deus, por Sua morte, a estabeleceu. Cristo não Se sacrificou para criar uma norma inferior, mas para que a justiça fosse mantida e a lei permanecesse imutável” (Parábolas de Jesus, p. 314). Daniel exalta a obediência e amplia o valor da lei de Deus, deixando claro que, no reino eterno, viveremos uma vida de obediência (Dn 7:27); Daniel relacionou a desobediência com rebeldia e com o ato de não caminhar segundo a lei de Deus (Dn 9:9, 10).

19. O SÁBADO. A palavra “sábado” não é mencionada no livro de Daniel. Entretanto, como o sábado é o quarto mandamento da Lei de Deus, e no contexto profético seria rejeitado e mudado pelos desobedientes, visualizamos esse santo dia em Daniel 7:25. Só Deus pode mudar os tempos e as horas (Dn 2:21). De certa forma, mudar o dia de adoração do sábado para o domingo é mudar um “tempo fixo” (tradução literal possível do original) e adiantar em 24 horas o dia separado para a adoração exclusiva.

20. MORDOMIA. Daniel era um mordomo/administrador fiel. Daniel era fiel no uso do tempo – ele separava tempo inegociável para Deus, mesmo diante das perseguições. Ele orava, rogava a Deus, jejuava e se arrependia de seus pecados e dos pecados de Seu povo. Estudava a Bíblia (Dn 3:10, 11; 9:2, 3, 5, 18, 19). O corpo de Daniel era templo do Espírito Santo – ele tinha uma dieta Bíblica (Dn 1:8, 12, 13, 15, 16, 17, 20, 21). Daniel dedicava seus talentos (capacidades naturais) e dons (capacitação divina) – todas as potencialidades deles estavam voltadas para o progresso da obra de Deus: o dom do conhecimento (Dn 1:17); o dom da sabedoria (Dn 1;17); o dom profético (todos os sonhos e as visões); o dom do discernimento de espíritos (Dn 2:27); o dom da liderança (Dn 1:21; 2:48; 4:9; 5:29; 6:28); o dom da misericórdia (Dn 9:3-23); o dom missionário (Dn 1:1-4); o dom da oração (Dn 2:16-19; 6:10; 9); o dom do serviço (Dn 6:20). Daniel estava em Babilônia a serviço de Deus. Era um homem disponível, um “vaso” para o Senhor usar. Daniel reconhecia que todos os tesouros (recursos) pertencem a Deus – para Daniel a sabedoria e a força pertenciam a Deus (Dn 2:20). Deus dá sabedoria e força quando pedimos (Dn 2:23). Deus esmiúça todos os metais preciosos deste mundo com o estabelecimento de Seu reino eterno (Dn 2:45). Deus move os homens a conceder a Seus filhos grandes dádivas (Daniel 2:48; 5:29). As bênçãos e as respostas de Deus não estão à venda, mas são oriundas de Sua graça (Daniel 5:16, 17). Deus contraria os planos dos poderosos, quando estes não reconhecem que todo o ouro é dEle (analise a história da estátua de ouro, que representava Nabucodonsor [Dn 3:1]; em lugar de Nabucodonosor honrar a Deus com o ouro que possuía, conclamou os povos a adorarem o ouro, na forma de estátua (Dn 3:1-6). Deus espera que nos desfaçamos dos nossos pecados pela justiça, usando de misericórdia para com os pobres (Dn 4:27; a ideia não é se salvar pela prática de boas obras, mas nos desfazer das riquezas que nos conduzem à perdição, pois onde estiver o nosso tesouro, ali estará o nosso coração). Nossa honestidade e integridade moral podem nos levar a posições de destaque para a honra e glória de Deus e testemunho às nações e poderes deste mundo (Dn 6:1-5). A santa obsessão do povo de Deus é viver no reino eterno, nossa mais valiosa herança (Dn 7:18, 27; 12:13).

21. CONDUTA CRISTÃ. Como era a conduta cristã de Daniel? Sua conduta era intocável e honrava a Deus poderosamente. Na conduta cristã, vivemos por princípios. Ele era um templo vivo do Espírito Santo (Dn 1:8, 17, 20). Daniel pede legumes, verduras e água e rejeita bebidas alcoólicas (Dn 1:8, 12; 5:23). Daniel caminhava e contemplava a natureza (Dn 10:4). Ele estudava boa literatura e era culto (Dn 1:4, 17). O caráter dele era sua real beleza. Não era possível achar ocasião ou culpa contra ele (Dn 6:1-5).

22. MATRIMÔNIO E FAMÍLIA. Daniel fala sobre casamento e família? Muito pouco, mas o suficiente para nos abençoar! Daniel fazia parte das principais famílias de Judá. Entendemos que ele obteve uma base espiritual satisfatória desde a infância até a juventude. Vida espiritual saudável não é um acidente. Cremos que Daniel teve uma família “cristã”. Daniel nos fala de casamentos políticos (Dn 2:43; 11:17). Imagine reinos políticos querendo se manter, e, para tornar as coisas mais fáceis, a filha do rei da Grécia, por exemplo, se casa com o filho do rei de Babilônia, por motivos políticos, para manter os reinos em família e sólidos. Deus disse que essas coisas não funcionam. Será o mesmo que tentar unir ferro com barro. Há aqui uma lição espiritual a ser extraída: o texto está falando de junções políticas. Deus espera que Seus filhos jamais se casem por motivos errados. Você deve conhecer casais que são como ferro e barro, por não terem as bênçãos de Deus na vida. Casaram-se por motivos errados. Ou se casaram por motivos corretos, mas querem se manter por meio de instrumentos errados. Seja qual for a sua história, cuidado!

23. O MINISTÉRIO DE CRISTO NO SANTUÁRIO CELESTIAL. Daniel é o homem usado por Deus para fortalecer nossa fé com respeito ao ministério de Cristo no santuário celestial. Daniel nos ensina a respeito da unção e purificação do santuário celestial (Dn 8:13, 14; 9:24-27); Daniel nos concede uma visão do cenário em que está ocorrendo o juízo investigativo e suas consequências (Dn 7:9-28); Daniel também nos fala da vindicação do caráter de Deus e de Seu povo, culminando com a salvação (Dn 7 e 8); Daniel nos leva ao passado, quando o santuário começaria a ser profanado. Visto que nele visualizamos o plano da salvação, um plano rival surgiu obscurecendo o ministério de Jesus em nosso favor (Dn 7:23-26; 8:9-12). Daniel também nos leva ao futuro, e nos dá a certeza profética de que o mal será destruído e de que Jesus vai reinar (Dn 7:27; 8:25).

24. A SEGUNDA VINDA DE CRISTO. Daniel não diz com todas as letras “Jesus vai voltar”, mas diz a mesma coisa de forma diferente. Ele usa “sinônimos teológicos”. O Deus do Céu levantará um reino que jamais será destruído e será estabelecido para sempre (Dn 2:44); o reino e o domínio, e a majestade dos reinos debaixo de todo o céu serão dados ao povo dos santos do Altíssimo. O seu reino será um reino eterno, e todos os domínios o servirão e Lhe obedecerão (Dn 7:28); o Príncipe dos príncipes, sem esforço de mãos humanas, destruirá e quebrará todos os outros reinos (Dn 8:25); muitos viverão eternamente; refulgirão como as estrelas sempre e eternamente (Dn 12:2, 3).

25. MORTE E RESSURREIÇÃO. Daniel nos fala da morte e da ressurreição. Ele não dá uma aula teológica sobre a morte e a ressurreição, mas fala essencialmente de resultados práticos: os sábios, encantadores, mágicos, adivinhos já estão sentenciados à morte. Eles continuam a não ter respostas (Dn 2:8, 9). Os homens que jogaram os servos de Deus na fornalha de fogo ardente morreram (Dn 3:22).  Belsazar, o homem que sabia, mas não quis, morreu (Dn 5:30). Os inimigos de Daniel foram jogados na cova dos leões, e foram estraçalhados em seus delitos e pecados (Dn 6:2). Muitos santos de Deus já descansam no pó da terra (Dn 9:26, 27). Muitos viverão eternamente, e muitos morrerão eternamente (Dn 12:2).

26. O MILÊNIO E O FIM DO PECADO. Daniel não usa a palavra “milênio”, mas fala sobre o que acontecerá durante o milênio. “E foi dado o juízo aos santos do Altíssimo, e chegou o tempo em que os santos possuíram o reino” (Dn 7:22). Os santos tomarão parte na obra de julgamento durante os mil anos (O Grande Conflito, p. 657, 658; 1Co 6:2, 3; Ap 20:4). O fim do pecado é notório nos escritos de Daniel: o reino de Deus jamais será destruído; após o juízo, os inimigos do povo de Deus serão destruídos, serão desfeitos até o fim (Dn 7:26); o mal será quebrado (Dn 8:25; 11:45); somos convidados a, juntamente com Daniel, irmos até o fim. Alguns descansarão no pó da terra, mas todos receberão a sua herança (Dn 12).

27. A NOVA TERRA. Daniel morreria, ressuscitaria e receberia a herança (Dn 12:13). Essas são as últimas palavras do livro e a última realidade histórico-profética. Qual é a herança de Daniel? O fruto do seu trabalho, o resultado de ser instrumento nas mãos de Deus: milhares e milhares de salvos, pelo poder da Palavra de Deus.

28. CRESCIMENTO EM CRISTO. Pela Sua morte na cruz, Jesus triunfou sobre as forças do mal. Ele subjugou os espíritos de demônios durante o Seu ministério terrestre e quebrou seu poder, tornando certo o destino final deles. A vitória de Jesus nos dá a vitória sobre as forças do mal que continuam procurando nos controlar, enquanto nós caminhamos com Ele em paz, alegria e temos a garantia do Seu amor. Agora o Espírito Santo mora conosco e nos dá poder. Continuamente comprometidos com Jesus como nosso Salvador e Senhor, somos livres do fardo dos nossos feitos passados. Não mais vivemos na escuridão, com medo dos poderes do mal, da ignorância e da falta de sentido de nosso antigo estilo de vida. Nessa nova liberdade em Jesus, somos chamados a crescer na semelhança de Seu caráter, comungando com Ele diariamente em oração, alimentando-nos de Sua Palavra, meditando nisso e em Sua providência, cantando Seus louvores, reunindo-nos juntos em adoração, e participando na missão da Igreja. À medida que nos entregamos ao serviço de amor àqueles que estão ao nosso redor e ao testemunho da salvação em Jesus, Sua constante presença vai conosco na missão da Igreja. Sua constante presença conosco por meio do Espírito transforma cada momento e toda tarefa numa experiência espiritual. Daniel e seus companheiros eram dez vezes mais doutos do que todos os magos e encantadores de Babilônia (Dn 1:20). As forças do mal não têm poder para revelar a verdade (Dn 2:10-12). Deus revela Sua vontade a Seus servos (Dn 2:19-28). Deus nos dá a vitória sobre as forças do mal (Dn 3:15, 24-30; 6:16, 18, 20, 26, 27; 8:25; 9:21; 10:21; 11:45; 12:1-3; 12:13). O mundo reconhece o caráter e a santidade dos filhos de Deus (Dn 4:8, 9; 5:11, 12). Os filhos de Deus O servirão e Lhe obedecerão eternamente (Dn 7:27).

Guilherme McPherson foi vítima de uma explosão aos 17 anos de idade, enquanto trabalhava em uma pedreira. Os médicos conseguiram salvar-lhe a vida, mas ele ficou sem braços e completamente cego. Sua grande frustração era não mais poder ler a Bíblia por si mesmo, tendo sempre que depender da boa vontade de outros. Certa ocasião, Guilherme ouviu o pastor de sua igreja relatar a experiência de uma idosa senhora entrevada que, não podendo mais segurar a Bíblia, a beijou, despedindo-se dela. A ideia de encostar os lábios na Bíblia levou Guilherme a crer que ele mesmo poderia voltar a ler as Escrituras se tão somente usasse a ponta da sua língua para aprender o método Braile de leitura para cegos. Durante muito tempo, Guilherme tocava com a ponta da língua e com os lábios os caracteres em alto relevo de sua Bíblia em Braile, para aprender a ler. Em muitas ocasiões, as páginas ficaram manchadas de sangue, pelas feridas provocadas por esse método incomum de leitura. Mas aos 46 anos de idade ele já havia lido quatro vezes a Bíblia completa para cegos, composta de 59 volumes grossos. A vida de Guilherme McPherson revela um amor incondicional às Escrituras Sagradas, que deveria ser imitado por todos aqueles que estão se preparando para a volta de Cristo.

O mundo em que vivemos se caracteriza pela globalização das informações, em que o fascínio pelo elemento visual está suplantando o conhecimento teórico da realidade. Mas, como cristãos adventistas, não podemos permitir que os recursos da mídia nos distanciem do conhecimento da Palavra de Deus. Precisamos voltar a ser reconhecidos como o “Povo da Bíblia”. Temos que enfrentar os dias finais da história humana, alicerçados sobre a Palavra de Deus (Is 40:8) e com o olhar fixo em Jesus, “o Autor e Consumador da fé” (Hb 12:2).

(Marcos Almeida Souza, diretor do Instituto de Desenvolvimento do Estudante Colportor [Idec], no Iaene e na Faama)

sexta-feira, setembro 21, 2012

Quão bom é Deus?

Seria o Deus do Antigo Testamento carrasco e sedento por sangue?

“Ouviste o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque Ele faz nascer o Seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos” (Mt 5:43, 44).

“Quando o Senhor, teu Deus, te introduzir na terra a qual passas a possuir, e tiver lançado muitas nações de diante de ti, os heteus, e os girgaseus, e os amorreus, e os cananeus, e os ferezeus, e os heveus, e os jebuseus, sete nações mais numerosas e mais poderesosas do que tu; e o Senhor, teu Deus, as tiver dado diante de ti, para as ferir, totalmente as destruirás; não farás com elas aliança, nem terás piedade delas” (Dt 7:1-3).

Amor e destruição. Duas palavras que sumarizam os textos acima. O mais intrigante é que essas duas passagens descrevem o mesmo Deus. Alguns cristãos, no passado e atualmente, numa tentativa quase desesperada para solucionar essa gritante contradição, sugeriram que o Deus do Antigo Testamento é diferente dAquele que encontramos nas páginas do Novo Testamento. Enquanto o primeiro é caracterizado como violento, sanguinário e mau, o segundo é apresentado como amoroso, perdoador e bondoso.

Mas não são apenas determinados cristãos que veem o Deus de Israel como um Deus mau. Em anos mais recentes, alguns ateus têm se valido de certas partes das Escrituras hebraicas para reprovar o caráter de Deus, como é apresentado ali. Veja, por exemplo, o que o acadêmico de Oxford, Richard Dawkins, escreveu a respeito de Yahweh:

“O Deus do Velho Testamento é provavelmente o mais desagradável dos seres em toda a ficção. O ciúme e o orgulho do mesmo o leva a um mimado e imperdoável controle dos mais fracos com evidente sede de sangue e desejo de limpeza racial. Um machista, homofóbico, infanticida, genocida, filicida, pestilento, megalomaníaco, sadomasoquista, caprichoso e malevolente fanfarrão.”[1]

Deus é tudo isso? Para Dawkins, sim! Ele seria capaz de adicionar uma passagem bíblica em cada uma dessas descrições. A pergunta que surge não é outra senão: Como entender essas passagens do Antigo Testamento que dão margem para interpretações como a do cientista de Oxford? Abaixo, veremos dois exemplos de passagens relacionadas com a escravidão no território de Israel e a destruição dos cananeus.[2]

Leitura equivocada

Um erro grave cometido por Dawkins – e também por muitos cristãos atuais – é ler o Antigo Testamento como se ele tivesse sido escrito no século 21 e para nós, ocidentais. Ao lermos o texto bíblico, precisamos nos lembrar de que ele foi escrito no Oriente Médio, no 2º e 1º milênios antes de Cristo. Acredite, isso resolve muitos problemas! Em lugar de comparar leis e práticas de Levítico, Números e Deuteronômio com leis atuais, compare com os códigos de leis dos povos daquela região e época.

Ilustraremos isso com o caso da escravidão. Essa foi a primeira lei que Deus deu aos israelitas, quando eles saíram do Egito (cf. Êx 21:1-11). Na lei mosaica, sequestrar alguém para ser vendido como escravo era um crime punido com pena capital (Êx 21:16). Um escravo hebreu deveria trabalhar apenas seis anos para pagar sua dívida, sendo liberto no sétimo ano sem pagar nada (Êx 21:2). Além disso, ele deveria receber de seu proprietário alguns animais e alimentos para começar a vida novamente (Dt 15:13, 14).[3] Durante seu período de serviço, o(a) escravo(a) teria um dia de folga semanal, o sábado (Êx 20:10).

Notou alguma diferença entre a escravidão bíblica e aquela mantida em nosso país, há alguns séculos? A diferença também é significativa quando comparamos essas passagens bíblicas com o famoso Código de Hamurabi, rei de Babilônia, no 18º século a.C. Se algum escravo fugisse, ele deveria ser morto; enquanto que, em Israel, esse escravo deveria ser protegido (Dt 23:15, 16). Proteger um escravo fugitivo, em Babilônia, era uma grande ofensa, também punida com morte, como evidenciado nas leis 15-20 do referido código.[4]

Alguém pode questionar o motivo pelo qual Deus não aboliu a escravidão entre os israelitas. Lembre-se de que eles estavam inseridos numa cultura impregnada dessa prática. Mesmo que Deus a abolisse, isso não mudaria a forma como eles pensavam. A título de ilustração, imagine o árduo processo cultural para tornar a Arábia Saudita em uma democracia! Mesmo que essa mudança fosse feita, ainda levaria um bom tempo até que a mentalidade da nação fosse mudada. No entanto, a legislação israelita oferecia um tratamento muito mais humano para os escravos, colocando escravo e senhor em pé de igualdade (cf. Jó 31:13-15).    

Sedento por sangue?

Foi somente no século passado que a palavra “genocídio” foi criada pelo polonês Raphael Lemkin. Não existia uma palavra capaz de descrever o que Pol Pot fez no Camboja; Mao Tse-tung, na China; e Adolf Hitler, na Europa. Milhões de vidas foram exterminadas nesses e em outros genocídios.[5] Quando lemos textos como aquele de Deuteronômio, citado no início deste artigo, deveríamos colocar Deus nesse hall da fama sanguinário? Não. Há uma gigantesca diferença entre o que vemos no Antigo Testamento e aquilo que aconteceu no século 20.

Que motivos levaram Deus a punir as nações de Canaã? Abaixo veremos pelo menos quatro:

Sacrifícios humanos. A adoração entre os povos de Canaã não era tão inocente como alguns podem pensar. O culto ao deus Moloque, por exemplo, envolvia sacrifícios de crianças. Vestígios arqueológicos desse tipo de prática foram encontrados em Hazor, bem no centro de Canaã.[6] Alguns textos bíblicos sugerem que Salomão e Manassés podem ter participado desse tipo de prática (cf. 1Rs 11:7; 2Cr 33:5, 6). Em Levítico 20:1-3, Deus deixou clara Sua reação diante desse tipo de prática: pena de morte.

Homossexualidade. Aparentemente, a prática do homossexualismo não era condenada entre os povos do antigo Oriente Médio. Não dispomos de informações diretas da prática entre os cananeus, mas, no entanto, passagens como Levítico 18:3, 24-30, com sua condenação generalizada das práticas sexuais dos cananeus e dos egípcios, podem implicar que os habitantes de Canaã toleravam a prática do homossexualismo. Uma ideia mais clara pode ser obtida da história de Sodoma, em Gênesis 19.[7]

Incesto. Nos contos religiosos dos cananeus, Ba’al, uma divindade bem conhecida nas páginas do Antigo Testamento, mantinha relações sexuais com sua mãe, Asherah, sua irmã, Anat, e sua filha, Pidray, que também era sua esposa![8] Como uma doença degenerativa que se alastra aos poucos pelo corpo, o mesmo se dava com a prática do incesto naquela época. No Egito, por volta do 14º século a.C., se alguém tivesse um sonho incestuoso com sua mãe ou irmã, era sinal de bom presságio.[9]  

Bestialismo ou Zoofilia. Note a lei 199 de um código Hitita, povo que residia ao norte de Canaã, na atual região da Turquia: “Se um homem tem intercurso sexual com um porco ou cachorro, ele deverá ser morto. Se tiver intercurso com um cavalo ou mula, não há punição.”[10] Mas ainda existia espaço para mais bestialismo em Canaã. No texto “O ciclo de Ba’al”, essa divindade mantinha relações sexuais com uma vaca, e ela deu à luz um filho fruto dessa relação.[11] 

Por que Deus mandou que os israelitas destruíssem os cananeus?  Porque Ele odeia o pecado! Tal palavra soa estranha aos nossos ouvidos. Nossa visão quase romântica de Deus deixou espaço apenas para o amor e se esqueceu quase completamente de Sua justiça e santidade. Um leitor atual pode achar Elias severo demais matando 450 profetas de Ba’al (cf. 1Rs 18:40), ou Deus agindo com muita violência enviando pragas contra o Egito (cf. Êx 7-12). A verdade é que um Deus santo não pode suportar a maldade por muito tempo. De acordo com o profeta Habacuque, Ele não é capaz de olhar para o mal (cf. Hc 1:13).  Quem sabe nós consideremos essas e outras passagens agressivas demais porque ainda não descobrimos quão cruel e horrível é o mal.

Mas é necessário um equilibrio aqui. Apresentar somente a justiça e a santidade de Deus pode nos levar para uma compreensão quase tirana de Sua pessoa. É necessário vermos também os esforços dEle em favor dos cananeus. Deus enviou José para o Egito com o objetivo de salvar toda aquela região da fome que durou sete anos (cf. Gn 45:4-8). Além disso, os israelitas permaneceram no Egito por 400 anos com o objetivo de dar oportunidade para os cananeus se arrependerem de suas iniquidades (heb. ‘awon) (cf. Gn 15:16). Após saírem do país dos faráos e passarem 40 anos no deserto, até mesmo uma prostituta, Raabe, sabia o que Deus havia feito e o que Ele faria em Jericó e em todo o território de Canaã (cf. Js 2:9-13). Os cananeus sabiam que o juízo de Deus estava às portas. Note que Raabe foi poupada dessa destruição. Ela estava disposta a ser regenerada dessa cultura, assim como Deus estava disposto a salvar aqueles que demonstrassem profunda tristeza e mudança diante dos seus maus atos.

É possível ver aqui um traço do caráter de Deus revelado mais explicitamente no Novo Testamento. Em 2 Pedro 3:9, o apóstolo nos lembra de que o Senhor “não retarda a Sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, Ele é longânimo para convosco não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento”. Assim como ocorreu com os cananitas, as oportunidades de arrependimento e salvação para um mundo cada vez mais contrário aos preceitos divinos estão chegando ao fim. Deus é amor, mas também precisa ser justo com Seus filhos. Amor e destruição? Não. Amor e justiça.

Quão bom é Deus? Ele mesmo respondeu, dizendo: “Senhor, Senhor Deus compassivo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade; que guarda a misericórdia em mil gerações, que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado, ainda que não inocenta o culpado, e visita a iniquidade dos pais nos filhos e nos filhos dos filhos, até a terceira e quarta geração” (Êx 34:6, 7).

(Luiz Gustavo Assis é pastor adventista em Porto Alegre, RS)

Referências:

1. Richard Dawkins, Deus, um Delírio (São Paulo: Cia. das Letras, 2007), p. 31. Sam Harris também fez severas críticas ao Antigo Testamento em sua obra Carta a uma Nação Cristã (São Paulo: Cia. Das Letras, 2007).
2. Diversos materiais têm sido publicados sobre esses dois tópicos, entre eles: Paul Copan, Is God a Moral Monster? Making Sense the Old Testament God (Baker, 2011); Clay Jones, Killing the Canaanites: A Response to the New Atheism’ “Divine Genocide” Claims, disponível em http://www.equip.org/articles/killing-the-canaanites (acessado em 9/3/11); Stanley Gundry (ed.), Deus Mandou Matar? Quatro pontos de vista sobre o genocídio cananeu (São Paulo: Vida Nova, 2006); Roy Gane, “Israelite Genocide and Islamic Jihad”, Spectrum 34:3 (2006), p. 61-65.
3. Gary Rendsburg, The Fate of Slaves in Ancient Israel. Disponível em: http://www.forward.com/articles/2888/ (acessado em 9/3/11).
4. Eugene E. Carpenter, Deuteronomy, em Zondervan Illustrated Bible Backgrounds Commentary, ed. John Walton  (Grand Rapids, MI: Zondervan, 2009), p. 1:496.
5. O matemático judeu David Berlinski cita duas páginas de estatísticas de massacres cometidos no ultimo século, em sua obra The Devil Delusion:Atheism and Its Scientific Pretensions (New York: Basic Books, 2009), p. 22-24.
6. E. E. Carpenter, Human Sacrifice, em The International Bible Encyclopedia, ed. Geoffrey W. Bromley (Grand Rapids: Eerdmans, 1988), p. 4:259. Para mais informações sobre os cultos a Moloque, ver George Heider, Moloch, em The Anchor Bible Dictionary, ed. David Noel Freedman (Doubleday, 1992), p. 4:895-898.
7. Gordon J. Wenham, The Old Testament Attitude to Homosexuality, Expository Times 102 (1991), p. 361.
8. William F. Albright, Yahweh and the Gods of Canaan: A Historical Analysis of Two Contrasting Faiths (Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 1968), p. 126.
9. Lise Manniche, Sexual Life in Ancient Egypt (London: Routledge, 1987), p. 100.
10. Harry A. Hoffner Jr., “Incest, Sodomy and Bestiality in the Ancient Near East”, in Orient and Occident: Essays Presented to Cyrus H. Gordon on the Occasion of His Sixty-fifth Birthday, ed. Harry A. Hoffner, Jr. (Neukirchen Vluyn, Germany: Neukirchener Verlag, 1973), p. 82.
11. Hoffner, Jr., p. 82.

terça-feira, setembro 11, 2012

Os 144 mil do Apocalipse

Quem são os 144 mil mencionados no livro do Apocalipse?

Um dos temas que mais intrigam os adventistas e os cristãos em geral são os 144 mil do Apocalipse. Muitos não compreendem nem mesmo os aspectos mais básicos em relação a eles – se o número é literal ou simbólico, se eles fazem parte da chamada “grande multidão” e, principalmente, quem são eles. Em grande parte, isso se deve a um conselho de Ellen White, de se evitar discussões inúteis sobre esse assunto, assim como outros não essenciais para a salvação.[1] No entanto, ela mesma citou esse grupo dezenas de vezes em seus escritos, relacionando-o a acontecimentos cruciais para o povo de Deus no tempo do fim, como o selamento e a grande tribulação. Tamanha foi a importância desse grupo em seu ministério profético, que os 144 mil foram representados logo em sua primeira visão, sobre o povo do advento.[2]

Apesar de haver escrito tanto sobre os 144 mil, Ellen White nunca os definiu claramente. A própria Igreja Adventista até hoje não tem uma posição oficial abrangente sobre o assunto. Embora o Instituto Bíblico de Pesquisas, órgão oficial da Associação Geral, interprete o número como simbólico[3], a igreja não determina oficialmente essa compreensão como uma crença.[4] E, apesar de o Seventh-day Adventist Commentary declarar que, até à época de sua reedição (1980), os adventistas favoreciam a interpretação de que os 144 mil são um grupo especial do povo de Deus nos últimos dias – um grupo à parte da grande multidão[5] –, essa também não era nem é até hoje uma posição oficial da igreja. O assunto ainda está em estudo, e o que se enfatiza não é quem são os 144 mil, mas como ser parte deles, como alcançar a salvação.[6]

Por outro lado, se Ellen White condenou discussões inúteis, também encorajou os adventistas a não desistir de buscar conhecer cada vez mais a Bíblia e as profecias.[7] Em uma de suas mais fortes declarações, ela afirmou: “A história da igreja nos ensina que o povo de Deus não deve ficar estereotipado em suas teorias da fé, mas preparar-se para nova luz, para abrir a verdade revelada em Sua Palavra.”[7]

Portanto, os ensinos e profecias da Bíblia podem e devem ser compreendidos cada vez mais à medida que o tempo passa e os estudos progridem. Aspectos como a justificação pela fé, que Ellen White não compreendia inicialmente, foram entendidos por ela décadas depois. Da mesma forma, partes da Bíblia que ela não entendia, pela falta de estudos mais profundos à época, hoje podem ser mais bem compreendidas (assim como Daniel não entendia suas próprias profecias, mas hoje podemos compreendê-las, ver Daniel 12:4).

Avanços

Nas últimas décadas, diversos estudos envolvendo os 144 mil têm sido divulgados por meios oficiais da igreja, como o Instituto Bíblico de Pesquisas da Associação Geral (BRI, sigla em inglês), lançando mais luz sobre o assunto. Uma importante coleção de materiais sobre Daniel e Apocalipse lançada no início dos anos 1990 é a série Daniel & Revelation Comitee Series, conhecida como “Darcom”. Num dos volumes da coleção, um capítulo escrito por Beatrice Neall, “Sealed Saints and the Tribulation” (“Os Santos Selados e a Tribulação”) trata diretamente dos 144 mil.[8] Nesse estudo, um ponto especial pode ser destacado: a relação entre os 144 mil e a “grande multidão” de Apocalipse 7. Em vez de enfatizar as diferenças entre ambos os grupos, a autora apresenta diversas “marcas de identificação” entre eles – evidências de que podem constituir um só grupo. Assim como ela, outros acadêmicos adventistas, como Ekkehardt Mueller, um dos diretores associados do BRI, também favorecem essa posição.

Os 144 mil são apresentados em duas seções, em Apocalipse: 7:1-8 e 14:1-5. No capítulo 7, o relato sobre os 144 mil é seguido pela descrição de uma multidão inumerável. A primeira grande evidência de que os 144 mil e a grande multidão podem ser o mesmo grupo é a própria estrutura do livro do Apocalipse. O capítulo 7 é um hiato, um parêntese entre o sexto e o sétimo selos. Ele responde a uma pergunta básica feita pelos ímpios no sexto selo.

Diante da expectativa da vinda de Jesus, os ímpios clamam aos montes e aos rochedos: “Caí sobre nós e escondei-nos da face dAquele que Se assenta no trono e da ira do Cordeiro, porque chegou o grande dia da ira dEles; e quem é que pode suster-se?” (Ap 6: 16, 17). Parafraseando, “quem poderá ficar de pé quando Cristo voltar?” Em 7:9, a resposta é direta: “Depois destas coisas, vi e eis grande multidão que ninguém podia enumerar [...] em pé diante do trono e diante do Cordeiro” (v. 9). Mais à frente, no livro, os 144 mil são vistos em pé junto ao Cordeiro, no monte Sião (Ap 14:1). 

Os 144 mil e a grande multidão são descritos em momentos diferentes, como os únicos que podem ficar de pé diante de Cristo, em Sua vinda à Terra. Isso deixa claro que ambos são o retrato do povo de Deus que estará vivo por ocasião da volta de Jesus. A questão é: Eles são dois grupos ou um só?

Um grupo

Assim como Beatrice Neall, Ekkehart Mueller, em seu artigo “The 144,000 and the Great Multitude”[9] (“Os 144 mil e a Grande Multidão”), apresenta argumentos convincentes em favor de que ambos os grupos são um só: (1) João ouve o número dos selados (144 mil), mas, na sequência, contempla uma grande multidão (7:4, 9), assim como em 5:5, 6 ele tinha ouvido sobre um Leão, mas viu um Cordeiro; (2) no capítulo 7, os 144 mil são os justos do tempo do fim descritos ainda na Terra; a grande multidão é um retrato desse povo já no Céu; (3) os 144 mil são a descrição do povo de Deus no tempo do fim, que vai passar pela grande tribulação (representada pela liberação dos ventos); a grande multidão são os que já passaram pela tribulação (7:3, 14); (4) os 144 mil são os selados antes da liberação dos ventos (7:3); a grande multidão logicamente precisou ser selada antes de passar pela grande tribulação (7:14).[10]

O selamento e a grande tribulação são as principais marcas de identificação, conforme Neall chama, entre os 144 mil e a grande multidão. Ambas as marcas dão fundamentos para se enxergar semelhanças, não diferenças, entre os grupos. Os dois grupos foram selados e passaram pela tribulação. Não é à toa que, no livro O Grande Conflito, Ellen White se refira aos 144 mil, citando versículos referentes diretamente à grande multidão (Ap 7:14-16).[11]

Assim, resta uma dúvida: O que poderia diferenciar os 144 mil da grande multidão? Haverá dois grupos de justos vivos quando Cristo voltar? Alguns argumentam que os 144 mil são as “primícias” (Ap 14:4), um grupo especial em relação à grande multidão. No entanto, “primícias” pode se referir aos 144 mil como os primeiros frutos da “colheita universal de redimidos de todas as eras”. Diante disso, Mueller conclui que “é melhor entender que os 144 mil e a grande multidão são o mesmo grupo, visto por diferentes perspectivas”. Para ele, os 144 mil representam um “termo simbólico”, enquanto a grande multidão “descreve a realidade”. [12]

O simbolismo dos 144 mil pode encontrar sua realidade na grande multidão em diversos outros aspectos, entre eles: (1) origem étnica – João ouviu de um grupo composto por 12 tribos de 12 mil filhos de Israel, mas viu uma multidão de tribos (7:9); (2) número – João ouviu um número exato, mas viu uma multidão inumerável (7:4, 9); (3) pureza – os 144 mil são descritos como puros, sem mancha, assim como a grande multidão, vestida de vestiduras brancas (14:4. 5; 7:14); (4) proximidade ao Cordeiro – os 144 mil “seguem o Cordeiro para onde quer que vá”, assim como a grande multidão serve de “dia e de noite” diante do trono e do Cordeiro (14:4; 7:15, 17); (5) serviço – os 144 mil são “servos de Deus”, e a grande multidão também “serve a Deus” (7:3, 15).

Hans K. LaRondelle, eminente teólogo adventista, apontou os 144 mil como o povo remanescente de Deus no tempo do fim, fiéis de todas as nações que “guardam os mandamentos de Deus e têm a fé em Jesus” (Ap 14:12). Segundo LaRondelle, eles enfrentarão a crise final promovida no mundo pelo anticristo. Ou seja, ele enxerga nos 144 mil um simbolismo do remanescente que passará pela grande tribulação.[14]

Diante das evidências apresentadas, torna-se ainda mais claro que o número 144 mil é simbólico. O próprio contexto das passagens indica isso: tanto no capítulo 7:1-8, como em 14:1-5, a linguagem diretamente ligada aos 144 mil tem forte simbolismo – ventos, quatro anjos, quatro cantos, selamento na testa, homens virgens, doze tribos de Israel (a maioria extinta, além de a lista não corresponder à original dos doze patriarcas), etc. É mais coerente entender os 144 mil das 12 tribos de Israel como que simbolizando a unidade, perfeição, completude e vastidão da igreja de Deus.[15]

Portanto, é possível concluir que os 144 mil simbolizam a grande multidão – a multidão inumerável que atravessará a crise final da Terra. Há razões para se acreditar que Jesus não virá para buscar um pequeno grupo de remidos, nem dois grupos de justos vivos na Terra, mas um remanescente fiel composto por uma multidão inumerável de todas as nações. Virá buscar um povo que terá passado por muitas dificuldades, mas que contou com a proteção de um Deus que lhes enxugará pessoalmente “toda lágrima” (Ap 7:17). Mais importante ainda é nos prepararmos para pertencer a esse grupo.

(Diogo Cavalcanti, editor na Casa Publicadora Brasileira)

Referências:

1. White, Ellen G. Eventos Finais, p. 268.
2. White, Ellen G. Primeiros Escritos, p. 15-23.
3. Pfandl, Gerhard. “Information on the Seventh-day Adventist Reform Movement”. Biblical Research Institute. Num ponto desse artigo, a crença reformista de que 144 mil é um número literal é posta em contraste com a crença adventista do sétimo dia de que o número é simbólico. Disponível em: http://www.adventistbiblicalresearch.org/Independent%20Ministries/SDA%20Reform%20movement.htm
4. Nichol, F. D. (Ed.). Seventh-day Adventist Bible Commentary, v. 7. Hagerstown, MD: Review and Herald, 1980. p. 783.
5. Ibid., p. 785.
6. Ibid., p. 783.
7. White, Ellen G. Caminho a Cristo, p. 112. Conselhos Sobre a Escola Sabatina, p. 23.
8. White, Ellen G. Cristo Triunfante, p. 317.
9. Frank Holbrook (ed.). Beatrice Neall. “Sealed Saints and the Tribulation”. Symposium on Revelation – Book I. Daniel & Revelation Committee Series. Hagerstown: Review and Herald, 2000. p. 245-278.
10. Mueller, Ekkehardt. “The 144,000 and the Great Multitude”. Biblical Research Institute. Disponível em: http://www.adventistbiblicalresearch.org/documents/144%2C000greatmultitude.htm
[1]1. Ibid.
[1]2. White, O Grande Conflito, 648, 649.
[1]3. Mueller. Ibid.
[1]4. LaRondelle, Hans K. “Prophetic Basis of Adventism”. Adventist Review, 1° de junho-20 de julho, 1989. Disponível em: http://www.adventistbiblicalresearch.org/documents/Prophetic%20Basis%20Adventism.htm
[1]5. Neall, Ibid. 262, 269.

terça-feira, fevereiro 07, 2012

A calúnia celestial de Satanás

Como provar que Ezequiel 28 se refere também a Satanás e ao começo do conflito no Céu?

Como um teólogo aspirante, escrevi meu primeiro trabalho de pesquisa a respeito dos textos de Isaías 14 e Ezequiel 28 – passagens que os adventistas tradicionalmente interpretam como sendo referentes a Satanás e à origem do mal no Céu. Seguindo a pista de comentários da alta crítica, cheguei à desconcertante conclusão de que essas passagens se referem nem a um nem a outro. Consequentemente, senti que os adventistas não deveriam mais citar essas supostas evidências bíblicas para sustentar sua compreensão acerca de como o Grande Conflito começou.

Entretanto, estudos mais aprofundados revelaram que, até o surgimento da crítica histórica à época do Iluminismo, os cristãos em geral interpretavam Isaías 14 e Ezequiel 28 da mesma maneira que os adventistas interpretam hoje. E, recentemente, encontrei evidências exegéticas convincentes de que Isaías e Ezequiel estavam, de fato, se referindo a Satanás nessas passagens.

Enquanto era estudante em nosso seminário, Jose Bertoluci escreveu uma dissertação que compromete seriamente a visão crítica de que os dois profetas descrevem apenas inimigos terrenos históricos de Israel. Intitulado “O Filho da Alva e o Querubim Cobridor no contexto do conflito entre o bem e o mal”[1], o artigo de Bertoluci mostra que cada passagem se transfere do domínio local e histórico dos reis terrestres para o âmbito sobrenatural no qual Lúcifer interpretou seu sedicioso papel. Descobri mais evidências que suportam esse deslocamento conceitual em Ezequiel 28 – do “príncipe” terreno (nagid, o rei de Tiro, versos 1-10) para o “rei” cósmico (melek, o soberano sobrenatural de Tiro, o próprio Satanás, versos 11-19). Descobri também que esse julgamento sobre o querubim caído ocorre no clímax do livro inteiro.[2] Desse modo, a evidência bíblica suporta fortemente a exegese tradicional: o mal teve sua origem em Lúcifer, o querubim cobridor.

Até alguns meses atrás, entretanto, um conceito adventista muito familiar a respeito do advento do Grande Conflito parecia não ter mais do que um suporte bíblico meramente inferencial. Refiro-me às alegações de que, antes de sua queda, Satanás se pôs entre os anjos a difamar o caráter e o governo de Deus. Nos livros Patriarcas e Profetas e O Grande Conflito, em torno de 16 páginas tratam desse assunto, com base em informações a respeito de Satanás tais como o fato de ele ter sido chamado “homicida desde o princípio, [...] um mentiroso” (João 8:44, RSV) e “o acusador de nossos irmãos” (Apocalipse 12:10, RSV). Mas existe alguma base bíblica mais explícita para a acusação de “calúnia celestial”?

Acredito que sim. Por um feliz acaso, eu estava examinando uma afirmação recente de que a maior parte da descrição de Satanás em Ezequiel 28 seria apenas simbólica porque, como foi argumentado, ele é descrito como sendo engajado em uma “abundância de [...] comércio” (verso 16, NKJV) e, obviamente, Lúcifer não é literalmente um mercador celestial. Na etimologia da palavra hebraica para “comércio”, fiz uma surpreendente e empolgante descoberta. O verbo rakal, do qual esse substantivo deriva, literalmente significa “andar por aí, de um para outro (para comércio ou conversa fútil)”.[3] O substantivo derivado rakil – encontrado seis vezes no Antigo Testamento, uma delas em Ezequiel 22:9 – significa “caluniador” ou “mexeriqueiro”. O outro substantivo derivado, rkullah – que é o termo usado para “comércio” em Ezequiel 28:16 – aparece somente nesse livro, e todas as suas quatro ocorrências têm que ver com Tiro (26:12; 28:5; 16, 18).

A maior parte das versões modernas traduzem rkullah como “tráfico”, “comércio” ou “mercadoria” – o que faz sentido, se aplicado somente à Tiro histórica, uma cidade mercante, como contexto único da palavra. Entretanto, em referência às representações do querubim cobridor em 28:16 e 18, a noção de comércio não parece se aplicar tão bem. O notável crítico exegeta Walther Eichrod comenta: “A descrição da transgressão é um pouco inesperada, já que o comércio aqui é subitamente representado como sendo a origem da iniquidade.”[4]

Uma resposta que acomoda ambas as interpretações, “comércio” e “calúnia”, pode ser encontrada, creio eu, em um recurso literário conhecido como “paranomasia” – um jogo com o significado da palavra. Já que o substantivo rkullah é derivado do verbo que significa “andar por aí, de um para outro, para fins de comércio ou de conversa fútil/difamação” – parece provável que Ezequiel tenha escolhido esse raro termo hebraico (ao invés do termo mais comum para comércio, sahar) justamente por causa de seu possível duplo significado. A Tiro histórica claramente “andou por aí, de um para outro” para fins de comércio com outras nações. De maneira semelhante, o derradeiro governante de Tiro, Satanás (versos 11-19), no celeste “monte de Deus”, também andou por aí, de um para outro – mas não para negociar, e sim para espalhar calúnia e difamação entre os anjos. Ambos os governantes, o terrestre e o espiritual, praticaram “tráfico”: o primeiro, de mercadorias; o segundo, de calúnias contra Deus.[5]

O contexto imediato de Ezequiel 28:16 retrata a queda do Querubim Cobridor da perfeição (verso 15) para o orgulho (verso 17). Nesse cenário, os versos 16 e 18 traçam seus subsequentes passos para a perdição. O verso 16 pode ser mais bem traduzido da seguinte maneira: “Na multiplicação da tua difamação [rkullah], se encheu o teu [de Satanás] interior de violência, e pecaste; pelo que te lançarei, profanado, fora do monte de Deus...” Com hábeis pinceladas, Ezequiel pinta o retrato de Lúcifer difamando a Deus, um primeiro passo em direção à definitiva rebelião aberta e violenta descrita tão bem por João como “guerra no Céu” (Apocalipse 12:7, NIV). Ezequiel 28:18 revela que, após sua expulsão do Céu, o querubim caído continua a sua “iniquidade de difamação [rkullah]” contra Deus. O versículo também registra a sentença divina contra Satanás: destruição pelo fogo por causa da “multidão de suas iniquidades”.

A sediciosa difamação celestial de Satanás contra Deus nos primeiros momentos do Grande Conflito não é uma adição adventista extrabíblica à história; é, na verdade, uma admirável verdade bíblica!

(Richard M. Davidson é professor de Antigo Testamento na Universidade Andrews, nos EUA)

Referências:

1. Jose M. Bertoluci, “The Son of the Morning and the Guardian Cherub in the Context of the Controversy Between Good and Evil”, dissertação de Th.D., Andrews University Seventh-Day Adventist Theological Seminary, 1985 (disponível a partir de University Microfilms, University of Michigan, P.O. Box 1346, Ann Arbor, MI 48106-1346).

2. Richard M. Davidson, “Revelation/Inspiration in the Old Testament”, Issues in Revelation and Inspiration, Adventist Theological Society Occasional Papers, v. 1, Frank Holbrook e Leo Van Dolson, eds. (Berrien Springs, Mich.: Adventist Theological Society Publications, 1992), p. 118, 119.

3. Francis Brown, S. R. Driver e Charles A. Briggs, eds., The New Brown, Driver and Briggs Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (Grand Rapids, Mich.; Baker Book House, 1981), p. 940.

4. Walter Eichrodt, Ezekiel: A Commentary, Old Testament Library (Philadelphia: Westminster Press, 1970), p. 394.

5. Apocalipse 18 parece capturar esse nuance dúbio utilizado por Ezequiel. Em uma passagem claramente alusória a Ezequiel 28, o anjo fala sobre a “mercadoria” de várias coisas materiais nos versos 12 e 13, mas a listagem termina transferindo-se para o âmbito espiritual: “mercadorias de [...] almas humanas” (KJV).

sexta-feira, fevereiro 03, 2012

Sobre deuses, astros e ídolos

Por que não é aconselhável a um cristão (ou a qualquer outra pessoa) ir ao cinema?

Este artigo procura explicar a influência que o “local cinema” pode ter na vida do indivíduo, relacionado a questões de espiritualidade, mente, comportamento e a aspectos fisiológicos. Este estudo não tem como intenção mostrar que filmes são indicados ou não para serem assistidos, ou se os filmes devem somente ser assistidos em casa (existem parâmetros bem definidos para isso na Bíblia e alguns textos de referência estão no fim deste artigo).

Aspectos psicológicos e sociológicos

1. Ritual religioso. Seja do ponto de vista evolucionista ou criacionista, sabe-se que o ser humano sempre teve a necessidade de adorar alguma coisa, algo, em algum lugar e vemos isso presente em todos os tempos, locais e culturas. Em termos de Semiótica e da Psicologia da Comunicação, é sabido que o ato de ir ao cinema se trata de um “ritual religioso”, por meio de uma representação dirigista, e que o cinema (o local) é comparado a um templo. Ou seja, pessoas desconhecidas, de diversos lugares convergem em um único ponto, em um lugar especial, específico (coisas especiais se fazem em lugares importantes) para “venerar” algo/alguém.

“Não é estranho que Hollywood fosse comparada com Meca e que os cinemas fossem comparados com os templos. Em todos esses contextos, os espectadores se abrem para a revelação que lhes é dada, acolhem em atitude de êxtase a força sagrada, veneram com devoção a seus deuses e deusas, recebem com fé mensagens que conferem um sentido a suas vidas e acolhem com reverência os modelos de vida que lhes impõem. É desta forte conexão com a emoção e com o inconsciente que as imagens incidem nas crenças e nos comportamentos, são reguladoras da conduta, veículos privilegiados para a implantação de modelos de vida” (Joan Ferrés, Televisão Subliminar – Socializando através de comunicações despercebidas, Artmed, 1998; Ferrés é professor na Universidade de Barcelona, pesquisador e pedagogo especialista na área de mídia).

Implicações – O indivíduo que vai ao cinema, intrinsecamente, estará preenchendo sua necessidade de adorar alguma coisa em algum lugar e, como consequência, por que ele sentiria, então, a necessidade de adorar a Deus na igreja? Ele poderá perder esse desejo ou diminuí-lo paulatinamente, substituindo-o por algo muito mais excitante aos seus sentidos.

2. Deuses, astros e ídolos. Outro aspecto “espiritual” do ato de ir ao cinema é a referência aos “astros”, “deuses” e “ídolos” do cinema. Muitas vezes, o indivíduo não vai ao cinema por causa do filme, mas, sim, por causa do ator/atriz que ele tanto admira. Prova disso são frases do tipo “você já viu o novo filme do fulano/fulana?”, servindo como referência ao ídolo do cinema e não ao filme, ou seja, o ator é a referência para que se vá assistir ao filme. Novamente, essa é uma analogia com aspectos religiosos, no ato de ir ao cinema.

Implicações – Novamente, a “concorrência” que tais ídolos, deuses e astros do cinema estariam fazendo ao preencher a busca de um referencial, algo inerente ao ser humano. O verdadeiro Deus ficaria, assim, suprimido e perderia espaço na adoração, na mente e no tempo do indivíduo que vai ao cinema.

3. Suspensão da realidade ou credibilidade. Ao adentrar um ambiente fantasioso, que gera toda uma expectativa, o indivíduo deixa fora sua realidade e se permite sonhar, esquecer seu cotidiano, esquecer o que rege sua vida, seus princípios, do que é louvável ou não, do padrão do certo ou errado. Ele fica envolvido. Quer esquecer a realidade e viver o filme. Joan Ferrés, em seu livro, diz: “O espectador esquece os cabos que sustentam o Superman e as transparências que animam seu voo, porque necessita sonhar com a superação das limitações que lhe atam a uma realidade medíocre e cinzenta.”

Implicações – Quando se vai a um ambiente em que a realidade fica “de fora”, a mente fica “aberta” a novas mensagens apresentadas de modo intenso, porque a noção do certo e errado acaba minimizada.

4. Interação social. O indivíduo vai ao cinema e está, também, interagindo com os demais “adoradores”; estão partilhando do mesmo ideal, pois não existe cinema sem pessoas. Seria totalmente desconfortável estar numa sala de cinema e ter meia dúzia de “gatos pingados”. Desde coisas simples, como onde sentar, quem sentará ao meu lado, o contágio do clima fílmico, toda a questão de “comunidade” está ali presente, pois todos estão ali com o mesmo objetivo. Não é nenhuma coincidência a semelhança com o contágio social, o senso de comunidade em uma igreja, de pessoas que estão ali para adorar a Deus.

Veja esta citação da matéria “Por que os cinemas não morreram”, publicada na revista Sociologia, edição nº 2 (Editora Escala): “Uma das poucas vantagens do cinema em relação às demais mídias é o forte apelo da indústria cultural divulgando as estreias dos filmes, pois a indústria cultural trabalha constantemente com o novo. Ainda assim, as salas de cinema ainda são capazes de atrair as pessoas para desvendar o mistério de assistir um filme em grande écran, acompanhadas de desconhecidos que compartilham sentimentos e expectativas por um breve período de exibição de uma película. Enfim, parece que as pessoas ainda precisam do clima místico do cinema e da partilha de sentimentos coletiva para se sentirem como parte do mundo, por mais que este hoje pareça tribalista.”

Implicação – Quem vai ao cinema está também preenchendo ali seu senso de coletividade, ao “congregar” e partilhar do mesmo objetivo com outros indivíduos.

O ambiente: aspectos neurofisiológicos

Partindo do princípio de que a sala de cinema é projetada especialmente para dar um grande impacto emotivo, uma hiperestimulação sensorial, ser realmente algo especial e marcante para o espectador, podemos tirar algumas conclusões:

1. O som. No ambiente da sala do cinema o som proporciona ao espectador algo mais do que o envolvimento emocional de uma trilha sonora. Geralmente, é um som alto, surround e com intensidade acima de 90 decibéis, quando este é então percebido também como vibrações. Essas vibrações penetram no corpo influenciando diretamente nossos órgãos. As ondas sonoras graves têm maior comprimento e podem penetrar em distâncias maiores. No labirinto (órgão do ouvido), existe um líquido que, quando se movimenta, empurra as células ciliadas para um lado ou outro. Quando viramos a cabeça para um lado, o líquido se movimenta e empurra os cílios das células receptoras para o outro lado, aumentando ou diminuindo o número de estímulos elétricos enviados pelo nervo ao sistema nervoso central. O sistema nervoso central é que decifra a quantidade de estímulos elétricos, compara com a posição do resto do corpo e dá a percepção de equilíbrio.

Se um som com 90 decibéis ou mais fizer com que o líquido do labirinto incline os cílios das células receptoras, o sistema nervoso vai decifrar isso como movimento e ajustará os músculos dos membros para equilibrar, podendo assim alterar o equilíbrio do corpo em meio à contemplação de um filme com tal volume de som, por exemplo.

As imagens projetadas nos olhos também influenciam o equilíbrio, pois o Cerebelo é que integra as informações oriundas dos olhos e aquelas oriundas do labirinto. Muitas vezes, em um ambiente de cinema, as informações vindas do labirinto e dos olhos são conflitantes e isso também provoca desequilíbrio.

Como os nervos que levam informações do labirinto para o cérebro são muito próximos do nervo vago, que leva e traz informações do sistema gastrointestinal, uma estimulação forte do nervo que sai do labirinto pode estimular o nervo vago e produzir ânsia de vômito e até vômitos.

Enquanto houver estímulos sobre as células receptoras e o cérebro receber essas informações, esses fenômenos continuarão ocorrendo.

Implicação – A intensidade do som de uma sala de cinema é além de 90 decibéis e, aliada a um efeito surround, a noção de equilibro é em muito diminuída (o indivíduo fica “zonzo”, “tonto”), no transcorrer do filme. Isso compromete em muito seu estado de lucidez e seu senso crítico/discernimento, nesse tipo de ambiente.

2. Hiperestímulo sensorial. O indivíduo que assiste a um filme em uma sala de cinema está enormemente mais exposto a hiperestímulos sensoriais do que o que assiste a um filme em sua casa, pelos fatores anteriormente abordados e pelo que ainda será abordado mais adiante.

Quando escutamos e/ou vemos algo, essa informação sonora e auditiva, esses estímulos sensoriais são transformados em impulsos nervosos, sendo enviados ao córtex cerebral para serem interpretados e se tornarem ou não conscientes (segundo estudos, não mais que 20% do que vemos ou ouvimos vai para o consciente; o restante vai para o inconsciente humano e ali não se tem controle de como atuará em todo o corpo e mente). Antes de chegarem ao córtex cerebral os estímulos chegam a uma “estação retransmissora” chamada tálamo. No tálamo, existem sinapses com várias partes do sistema nervoso:

a) Sistema límbico, responsável pelas emoções.
b) Hipotálamo, que controla o sistema nervoso autonômico, responsável pelo controle dos batimentos cardíacos, sudorese, pupilas, respiração, secreção de adrenalina pela glândula suprarrenal, etc., e a glândula hipófise, responsável pelo controle dos hormônios e das várias outras glândulas do corpo.
c) Tronco cerebral, onde é controlado o ciclo sono/vigília e o movimento e equilíbrio do corpo.

Assim, os sons e imagens podem provocar variadas reações no organismo. Quando os estímulos chegam ao tálamo, ele decide para onde vai enviar sinais nervosos e quais estruturas nervosas e hormonais vai acionar.

Por exemplo, filmes que contenham cenas de suspense, terror, guerra, mortes geram uma reação de estresse e o sistema nervoso autonômico é estimulado e prepara o organismo para lutar ou fugir (reação de fuga ou luta). O corpo então é preparado para esforço físico forte e rápido: aumentam os níveis de glicose no sangue, o sangue é deslocado de regiões como cérebro, estômago e intestino para aumentar o fluxo sanguíneo nos músculos; ainda aumentam a frequência respiratória e cardíaca, a velocidade de coagulação sanguínea, ocorre sudorese, a pupila fica dilatada, diminui o fluxo sanguíneo em outros órgãos como rins e sistema gastrointestinal, aumenta a liberação de adrenalina, noradrenalina e cortisol na glândula suprarrenal.

Essa situação deve ocorrer por pouco tempo, pois se perdurar por mais do que 15 ou 20 minutos, os efeitos do cortisol fazem com que o sistema imunológico fique deprimido. Além disso, os efeitos da adrenalina e da noradrenalina provocarão aumento da pressão arterial e a função renal será prejudicada. Perceba que o indivíduo poderá ter todas essas reações estando estático, sentado em uma cadeira de uma sala de cinema.

Mas um filme que gera essas sensações tem duração de somente 15 ou 20 minutos? Vale lembrar que em qualquer tipo de filme existe suspense em relação a “qual será a próxima cena”, embalado por trilhas sonoras e tomadas de câmera envolventes. Deve-se ter o discernimento do que, como e onde assistir – fatores decisivos que interferem na influência das películas em nossa mente.

Além disso, quando o sistema límbico (responsável pelas emoções) é ativado, várias reações emocionais são acionadas, além de estimular a aquisição de dados na memória.
Uma vez que o hipotálamo seja estimulado, tanto o sistema límbico (emoções) e o sistema nervoso autonômico (batimentos cardíacos, respiração, secreção de adrenalina, etc.) quanto o sistema hormonal ficarão alterados. Quanto mais intensa for a entrada e quantidade de estímulos sensoriais, mais estruturas nervosas serão estimuladas.

O centro do prazer é formado por estruturas do sistema límbico (das emoções) e é estimulado por neurotransmissores e/ou hormônios como: dopamina, serotonina, endorfinas, noradrenalina e adrenalina. Quando esse centro do prazer é estimulado o individuo tende a repetir a experiência para produzir prazer novamente.

A superestimulação sensorial também produz aumento do nível desses receptores nas sinapses. Se esses neurotransmissores estimularem de maneira mais demorada (qual a duração de um filme?), o centro do prazer leva ao estado de dependência – desejo de repetir a experiência – e à tolerância – necessidade de uma dose maior para produzir o mesmo sentimento de prazer. A isso se chama vício. Embora tal mecanismo também ocorra em estímulos neurossensoriais recebidos de um filme em uma televisão, os efeitos em uma sala de cinema são consideravelmente mais intensos, devido aos fatores abordados e a serem ainda expostos.

Outra consequência de filmes assistidos em salas de cinema é a “anestesia e atrofia” do que popularmente chamamos de “consciência”. Um dos centros nervosos que recebem impulsos do hipotálamo e do ouvido é um núcleo denominado Lócus Cerúleos. Esse núcleo envia neurotransmissores para algumas partes do cérebro, entre elas está o córtex pré-frontal. Quando ocorre muita estimulação do Lócus Cerúleos (como assistir a um filme no cinema), ele faz com que estímulos nervosos liberem noradrenalina dos terminais dos nervos que chegam ao córtex pré-frontal. A atuação de níveis altos de noradrenalina no córtex pré-frontal atua como uma forma de anestesia das funções dessa região.

Por isso, as funções de tomar decisões corretas ficam prejudicadas, pois o córtex pré-frontal não consegue buscar informações armazenadas na memória e em outras regiões (como se a “base de dados” do que é certo e errado estivesse sendo bloqueada). Assim, a razão, o domínio próprio, a consciência ficam afetados. Como a razão fica “anestesiada”, as emoções dominam as ações. Como os hormônios foram liberados em maior quantidade pela estimulação do hipotálamo, o desejo sexual e qualquer outra função ficam fora do controle da razão, por exemplo.

Implicação – Podemos enumerar as implicações:

1. Assim como não temos mais domínio sobre a ação de um copo d água dentro do corpo depois que a ingerimos, não temos mais domínio próprio em uma informação visual e auditiva que percebemos, pois ela se transforma em impulsos nervosos e torna-se algo fisiológico; não mais há o domínio próprio sobre o efeito que terá no corpo do indivíduo.

2. Funções metabólicas e sistema imunológico ficam prejudicados mediante a exposição a uma hiperestimulação do corpo em uma sessão de cinema (alteração de batimentos cardíacos, pressão arterial, sudorese, pupilas, respiração, secreção de neurotransmissores e hormônios, etc.).

3. A exposição a esses estímulos neurosensoriais intensos leva a um estado de: (1) dependência – desejo de repetir a experiência, e (2) tolerância – necessidade de uma dose maior para produzir o mesmo sentimento de prazer. Tais fatores são popularmente chamados de vício. Surge então o perigo de que o ato de frequentar o cinema não será mais um prazer suficiente para gratificar o mecanismo de recompensa do cérebro, pois este pedirá estímulos mais intensos.

4. Outra consequência é a que o espectador assíduo do cinema acaba por achar monótono tudo o que é abstrato ou estático (como a leitura de livros e revistas, que requerem mais concentração e um cérebro mais treinado na abstração que é requerida na leitura). O indivíduo acaba necessitando de sobrecarga sensorial para se sentir vivo e gratificado.

5. O córtex pré-frontal e suas funções (consciência, razão, discernimento, domínio próprio) ficam atrofiados e anestesiados pela atuação de níveis altos de noradrenalina liberados pela estimulação do Lócus Cerúleos. As funções de tomar as decisões corretas ficam prejudicadas e o indivíduo passa a tomar suas decisões baseados em aspectos emotivos e não racionais.

3. Dimensões da tela de cinema

Um dos grandes diferenciais entre assistir a um filme em uma televisão e em uma sala de cinema, com certeza, é a dimensão da tela. Somente por essa comparação, deduz-se que a quantidade de informação e influência visual é muito mais intensa. Quantas televisões “cabem” em uma tela de cinema?

Ainda nessa comparação, a tela de cinema envolve a visão fóvica (central) e a visão periférica. Uma televisão comum certamente não engloba as visões fóvica e periférica ao mesmo tempo, por mais que as telas estejam maiores e quase sempre haja interferência e distrações no ambiente (alguém se levanta, vai ao banheiro, cozinha, existem comentários entre os espectadores, etc.).

Indo para o campo fisiológico, explicaremos como ocorre a estimulação da retina e como isso chega ao córtex visual (SNC – Sistema Nervoso Central).

Campo receptivo é a chamada área da retina em que um estímulo luminoso (imagem) altera os fotorreceptores (cones e/ou bastonetes), provocando atividade dos neurônios da via visual (nervo óptico). Na fóvea (visão fóvica, central), que fica no centro da retina onde a acuidade visual é maior, os campos receptivos são menores comparados àqueles da retina periférica (ou visão periférica). Tais campos receptivos dos neurônios que recebem informações dos fotorreceptores são circulares. Esse campo receptivo circular é dividido num círculo central e num círculo periférico. A área central desse círculo central (visão fóvica, central) é estimulada de forma antagônica à do círculo periférico (visão periférica), ou seja, se antagonizam mutuamente.

Quando estímulos visuais (imagens) atingem apenas a periferia de um campo receptivo, a estimulação dos neurônios é mínima. Porém, quando a imagem estimula a periferia e o centro de um campo receptivo, simultaneamente, então a estimulação das células nervosas é máxima e, como consequência, muitíssimo mais informações visuais adentrarão o cérebro.

Possivelmente, a exposição de um filme numa tela grande facilite a estimulação de uma área maior na retina, principalmente nas regiões laterais onde os campos receptivos dos neurônios são maiores. Lembramos que em uma sala de cinema o indivíduo permanece estático, sem muitos movimentos de corpo e cabeça, por no mínimo 90 minutos.

Apenas para completar, existem vias nervosas separadas para levar até o córtex visual os diversos estímulos: uma para cor, outra para forma e profundidade da imagem e outra para movimento. As informações visuais contidas numa imagem são primeiramente detectadas e analisadas por diferentes circuitos neurais, depois permitindo a síntese da informação para a percepção global no córtex visual.

Implicação – Não existe “escape visual” ao estar em uma sessão de cinema. Por no mínimo 90 minutos, o indivíduo estará exposto a uma estimulação máxima nas células receptoras da visão devido à dimensão da tela, por englobar visão fóvica e periférica, o que gera uma influência muito maior da mensagem filosófica do filme e seus efeitos fisiológicos na mente e corpo.

4. Resposta pupilográfica

Outro fator relacionado ao ato de assistir a um filme em uma sala de cinema é a dilatação da pupila, ou midríase (nomenclatura fisiológica) ou ainda resposta pupilográfica. A pupila é a porta de entrada dos estímulos luminosos (imagens), portanto, quanto mais dilatada estiver, com maior abertura, mais estímulos neurossensoriais adentrarão com maior intensidade no organismo do indivíduo.

É bem conhecido que em um ambiente escuro a pupila se dilata mais para que entre mais luz (estímulos luminosos, imagens) e, assim, se tenha melhor acuidade visual. Obviamente, em uma sala de cinema não existe luz ambiente (o ambiente é projetado para ser escuro) e a tela não emite luz como uma TV, uma vez que as imagens do filme são projetadas sobre a tela e ela refletirá pouca luz. Com isso, o ambiente tende a ficar mais escuro do que num ambiente em que o filme é assistido em uma TV e a abertura da pupila é maior – ou seja, mais estímulos neurossensoriais chegarão ao cérebro.

A pupila aumenta de tamanho; “abre-se” frente a estímulos agradáveis (alguém vai a uma sala de cinema para assistir a um filme que para si é “desagradável”?), e diminui de tamanho, “resiste”, se fecha frente a estímulos desagradáveis. Toda experiência nova faz com que adrenalina e noradrenalina sejam liberadas estimulando o centro do prazer. Como os jovens estão mais interessados em experiências novas, pois em sua memória ainda não estão registrados os resultados dessas experiências e suas consequências, eles desfrutam de prazer por praticar atividades que liberem esses neurotransmissores. Assim, situações novas ou desafiadoras fazem com que o sistema nervoso autonômico simpático libere noradrenalina e adrenalina, e uma das ações dessas substâncias é a midríase (dilatação das pupilas). Como mencionado anteriormente, essa dilatação proporciona maior entrada de luz nos olhos e uma visão mais acurada, e maior entrada de estímulos neurossensoriais.

Em situações de repouso, quem comanda nossas atividades autonômicas é o sistema nervoso autonômico parassimpático. Entre suas funções estão: diminuição dos batimentos cardíacos, aumento dos movimentos gastrointestinais, miose (contração das pupilas), dilatação dos vasos sanguíneos dos órgãos internos, etc.

Implicação – Podemos comparar, quem sabe, a pupila como um funil. Quanto maior for sua abertura, mais substâncias entrarão pelo orifício. A pupila é um “funil visual”: quanto maior a abertura, mais informação, mais influência, mais consequências comportamentais e fisiológicas. O olho não passa somente de um sensor e cerca de ¼ do cérebro é dedicado à visão.

5. Hipnose. Todas as questões anteriormente abordadas, somadas à “equação” ambiente escuro + corpo estático + olhar fixamente por mais de 90 minutos para um único ponto de luz, sugerem um estado de princípio de hipnose. Na hipnose, há a ausência de piscadas dos olhos e, quanto menos piscamos, mais intensamente estamos no estágio de pré-hipnose. A hipnose ocorre quando nossa mente está sob controle de um comando externo e perdemos o controle voluntário. Isso pode ocorrer voluntariamente ou involuntariamente.

Quando o indivíduo se dispõe a fazer todo o ritual de ir ao cinema, ficar exposto a toda sorte de estímulos psicológicos, sociológicos e fisiológicos, a “entrar no filme” e participar dele com todas as influências já abordadas, contemplando fixamente a produção que fabrica emoções, esse indivíduo está permitindo que as mensagens daquele filme dominem sua mente e suas emoções por um determinado espaço de tempo; ele se expõe a uma hipnose voluntária.

O simples fato de tais mensagens e filosofias dos filmes começarem a fazer parte da cultura e comportamento do indivíduo e predominarem em sua mente por meio da contemplação passiva desses já pode ser considerado uma hipnose voluntária.

Ademais, o período de tempo em que esses “valores hollywoodianos” permanecerão na mente e no comportamento do indivíduo dependerá do quanto sua consciência interferirá nesse processo (já abordamos anteriormente como o córtex pré-frontal é “anestesiado” sob tais influências).

A avaliação do “certo e errado” das mensagens conscientes do filme ficará então muito prejudicada com a consciência “bloqueada”, “anestesiada” e não conseguindo avaliá-las na comparação com os padrões éticos e morais memorizados.

Além desses aspectos, as mensagens abaixo do limiar da consciência (subliminares) não estão disponíveis para avaliação e escolha do que seja certo ou errado.

Assim, quanto mais cada indivíduo ficar exposto a todas as influências comentadas neste artigo e a menos padrões éticos, mais os conceitos enviados pelos filmes dominarão sobre os padrões estabelecidos.

Implicação – Se comentasse com um amigo que você iria se dirigir a uma reunião com indivíduos com quem jamais se encontrou antes, em um salão, auditório fechado, escuro, com som alto que compromete seu equilíbrio corporal, contemplando fixamente um único ponto de luz que envolve toda sua visão, sem escape visual, por cerca de duas horas, com suas emoções em seu limiar, acolhendo mensagens, filosofias e roteiros cuidadosamente elaborados para gerar um estado de êxtase em você, o que esse amigo lhe diria a respeito disso?

Para reflexão: “Não porei coisa má diante dos meus olhos” (Salmo 101:2). “A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz” (Mateus 6:22). “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida” (Provérbios 4:23). “Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai” (Filipenses 4:8).

(Cristiano James Kleinert, designer/programador visual)

Contribuições técnicas:

Prof. Dr. Hélio Pothin (professor de Fisiologia Humana na Universidade Federal de Santa Maria)

Prof. Dr. Eduardo Guillermo Castro (professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Santa Maria)

Assista a este vídeo em que o pastor Erton Köhler, presidente da Igreja Adventista na América do Sul, fala sobre cinema.

Quero adicionar apenas mais dois simples argumentos [MB]:

1. Aparência do mal: para muitos irmãos adventista e evangélicos, cinema é local inapropriado para o cristão. Alguns nem sabem bem por quê. O fato é que ficam escandalizados de ver um adventista/cristão lá. Qual seria a postura do apóstolo Paulo, por exemplo, nesse caso? Ainda que ele não visse mal em ir ao cinema (coisa que duvido), ele não iria para não servir de pedra de tropeço. Ele evitou carnes sacrificadas aos ídolos justamente por causa da consciência mais fraca de alguns irmãos. Se nos preocupamos com a salvação dos outros, evitaremos tudo aquilo que pode atrapalhar a edificação da fé deles. Nossos prazeres e preferências não podem ser mais importantes que isso.

2. A igreja não recomenda a frequência ao cinema e creio sinceramente que Deus guia Seu povo, especialmente quando este, reunido e representado por sua liderança, toma decisões ou faz recomendações aos membros.

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...